Sherlock disse uma vez que nosso cérebro é como um sótão. Lá é onde a gente guarda nossas coisas, conhecimentos, memórias, tudo.
Se a gente absorve qualquer tipo de informação, fica difícil organizar tudo. E se absorvermos de um jeito errado, sem preparação, também. Na hora de acessarmos isso, nosso sótão revirado não vai colaborar em nada.
Concordo.
Exceto com um aspecto.
Nós, em nossa vida prática, não guardamos tudo no sótão. O que é importante, a gente leva pra um cofre, debaixo do colchão, dentro de um baú trancado a sete chaves. Esse lugar na gente é o coração. Ou eu gosto de acreditar nisso.
Por exemplo.
* * * *
Já era noite.
O ônibus velho sacolejava de volta pra casa. Escureceu rápido, era inverno. Não bastando o frio, o ar condicionado estava inexplicavelmente ligado. A gente dividia um cobertor, o banco e o abraço fraterno, limpo, transparente. A brincadeira era constante. Risadas suaves. O ressonar do restante dos passageiros fazia a sinfonia dos anjos.
"Por que você parou de me abraçar?"
Até hoje eu não sei, morena.
Me distrai por um momento. Deixei escapar. Fiquei com vergonha, eu acho. E suas palavras quentes me reconfortaram.
Foi aí que aconteceu, eu acho.
Desde então, não guardei mais nossas memórias numa gaveta qualquer, em meu "sótão". Escolhi uma sala toda só pra você, com quadros do teu rosto, gravações de teu riso. E daquele momento em especial, onde eu percebi que você não era só uma pessoa querida.
Era uma mulher.
* * * *
Também teve aquela vez.
O absinto estava circulando em meu sangue, procurando uma saída.
Era como se a bebida entrasse e a felicidade fosse expelida pelos poros. Talvez era só papel de babaca, mas a gente se sentia extasiados. E prestes a ficar melhor, numa festa na penumbra, com som alto e meninas bonitas.
O vento batendo no rosto é incrível, parece muita liberdade.
E dançar juntinho parecia uma desculpa muito boa para se aproximar daquela menina ali sentada. Ela não era a única, mas a famigerada fada verde deve ter sussurrado algo que me deu a coragem de tirá-la pra pista improvisada.
Posso não ser capaz de ordenar os fatos daquela noite, mas eles seguem vivos dentro de mim. Mesmo depois de tanto tempo.
* * * *
E é mais ou menos por aí.
A gente sempre tranca os detalhes, como se eles fossem fugir. Mas a gente é que acaba fugindo dos fatos. As coisas mais marcantes são as que a gente acaba esquecendo.
Pode ser um paradoxo, mas não esqueci de você.
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