No dia seguinte, sob a aura da geada - e acredito que de alguma aurora boreal -, me dirigi ao local de minha primeira grande glória. Livraria Róseas. Minha agente, a querida Dora, foi tratar das questões contratuais cujas atribuições ignoro. O dinheiro não é meu objetivo, e sim a arte pela arte.
- Dora, flor de primavera! - chamei - Lembre-se que prefiro notas novas, aquelas de tamanhos diferentes, sabe?
Não era pedir demais, presumo. Ela confabulou um pouco com o estimado senhor Almir, que balançava a cabeça, já começando a suar. Eu estava já sentado em minha pequena e modesta mesa de autógrafos, com dezenas de livros ao redor e um maravilhoso banner com minha imagem. Resolvi que era necessário minha intervenção. Afinal, sem dinheiro para mim, sem autógrafos. Sim, eu que era PAGO para comparecer aos estabelecimentos. Não aprecio o fato de dar algo que é tão meu, como a escrita. Mas se existe algum indivíduo que deve render alguns dinheiros com este processo, que seja eu, já disse o poeta do gueto.
- Ramiro, só tem essas notas em Chapecó.
Sorri, com complacência de uma Madre Teresa.
- ...pois bem, eu aguardarei o pagamento em meu hotel!
Almir perdeu a compostura e, suando píncaros, protestou:
- Ma-mas Ramiro! Estamos com toda a estrutura para hoje! Fizemos um forte trabalho de marketing hoje...
- Caro Almir, sejamos francos. Uma estrutura pode ser refeita a qualquer momento. Quanto ao marketing, garanto que se pedir com jeitinho, nosso companheiro do caminhão de galinhas irá manter meu outdoor em seu veículo.
Girei em meus calcanhares, com Dora em meu encalço e arremeti, com meu humor irreparável:
- Isso se ele souber o que se trata um outdoor, naturalmente!
Sou um gozador.
* * * *
E eu já estava fumando minha piteira, ato súbito ao coito, quando Dora suspirou, desnuda:
- AH! O senhor é incrível, Ramiro!
- São os sais afrodisíacos, querida Dora. São os sais...
Ela realmente me adora, a Dora.
* * * *
- Aquele idiota do Ramiro Pontal! Ele acredita que é a reencarnação de Tutancâmon, decerto!
- Calma, ele acha que aqui em Ipumirim é só chegar, seduzir nossas mulheres, dar alguns autógrafos e atrapalhar a ordem natural da cidade. Mas nós vamos dar um jeito nele. Ah, se vamos.
Sim, ou vocês acharam que esta estória não teriam conspirações e reviravoltas?
Eu não estaria gastando meu português deveras enriquecido com minha visão de mundo, para confabular coisas sem utilidade para sua e para a minha vida.
Ou o resto dela.
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