domingo, 24 de julho de 2011

Meu Nome Não é Johnny?

E o João Augusto?

Ah, ele é mais um dos nossos. Saca só:

- E aí, grande? Vamos pegar quantas essa noite? Tô animadaço!
- Sei lá, Guto.
- Como "sei lá"? Que é isso, jovem? Parece que foi você quem tava numa fossa, não eu!
- Por isso. Você tem certeza que tá afim de fazer isso, maninho?
- Claro, caramba! Vambora! Pega o carro aí, vamos azarar geral, maluco!
- Tá, cê que sabe.

Três horas e vários drinques depois, ele choraria no banheiro a noite toda, por ter tomado um pé na bunda da namorada, que foi pra Noruega com um intercambista safado, que não conhece nenhuma ética masculina ou coisa que o valha. E a gente ali, administrando a cabine ocupada, a vergonha alheia e a crise existencial de nosso camarada João Augusto.

E isso se seguiu por algum tempo, até ele chegar na fase que chamamos "chá de sumiço". É uma etapa específica da fossa que o homem fica num princípio de depressão. Não atende o telefone, nem responde emails. E até deleta algumas redes sociais. E quando dá sinal de vida:

- Ô, Guto, vai ficar aí no XBox a noite toda?
- Não, cara. Tô só batendo teu recorde no Guitar Hero.
- Tu falou isso faz duas horas. A gente tá te esperando pra sair, cara!
- É que eu vou bater em todas as músicas.
- ...tamos saindo.
- Falou.

Mas João Augusto, hoje, teve sua desforra.

Depois de chorar muito vendo os filmes que compartilhou com a atual ex, vendo sozinho 500 Dias com Ela ou P.S.: Eu Te Amo.
Depois de esconder o olhar marejado ao ouvir as músicas que ofereceu pra cretina, todas aquelas dos Beatles ou a do John Mayer, a única que ele me pentelhou uma semana pra eu ensinar a tocar.
Depois de fugir das festas, das mulheres, da bebida, dos amigos, de tudo que lembrasse dela.

Ele conseguiu.

Ninguém viu ele chegar na boate. Todos estavam ocupados demais bebendo, falando merda ou dançando com uma gatinha. Nem desconfiávamos que nosso Guto teria culhão pra vir sozinho, correndo o risco de não nos encontrar, ainda mais levando em conta que era uma festa que nunca íamos. Festa de dançar coladinho não é a praia da nossa irmandade. Mas dessa vez (destino?), a gente arriscou. E o João também.

- ...oi.
- ...oi.
- Você...
- ...vem sempre aqui?
Riso bonito. Ponto pra ela.
- Gosta de terminar as frases dos outros?
- Só quando elas são previsíveis.
Cortes precisos e sóbrios. Dois a zero.
João virou as costas e saiu andando. Ela veio atrás.
- Calma, também não é pra ficar brabo!
- Eu não fiquei. Só queria te tirar da pista.
Dois a um.
- Pra que?

Todo mundo da festa saberia a resposta. E ele sorriu, genuinamente, pela primeira vez, depois de muita lágrima. Sentiu vontade de gritar "EU VOLTEI!". Não precisava. Quando fui fumar um cigarro, eu encontrei aquele casal, lá longe, e reconheci o meu grande amigo. Chamei o resto da galera, sem me importar com o que estavam fazendo ou se estavam tendo sucesso. Era a hora do João Augusto.

E pra isso, só precisou beijar aquela moça, ao som de "Your Body is a Wonderland".

E o Passado, que ficava claramente pendurado no pescoço dele, como um encosto ruim ou uma gravata feia, dissipou no gelo-seco e no show de luzes da banda cover.

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