segunda-feira, 18 de julho de 2011

Moral da História

Minha página continua em branco.

Quando a senhorita Inspiração vem aqui do lado, com aquela cara de cachorro sem dono, mordendo o lábio, eu nem penso muito. Só agradeço a Deus que minha mente consiga traduzir meu desejo aos meus dedos e que estes sejam capazes de digitar tudo num átimo, num estampido de bala que atravessa a rede e chega aos olhos de meus amigos, que por enquanto não enjoaram de mim.

Mas às vezes, só às vezes, eu queria não parar e tentar advinhar o tamanho do abismo que me separa do "final". Entre aspas porque é um abstracionismo grosseiro. O final que eu me refiro, na verdade, é realmente o começo. O começo do ato onde a minha vida deixa de ser um sonho e se torna realidade. Pura e crua. É involuntário, como um reflexo condicionado, daqueles que fazem a gente tremer de frio como se tivesse um princípio de ataque epilético.

E nessas horas que eu olho no espelho e afirmo, com convicção:

- Você é capaz de fazer um romance. Daqueles de trezentas páginas.

O espelho racha na hora. É quase um mau agouro vindo da tempestade dentro de meu coração.

Por que? Simples.

Porque eu quero acelerar as coisas. Nossa geração imediatista trabalha com o choque, o tapa na cara. Sentimos a vida fluir quando coisas absurdas acontecem. E a gente tem sede disso, sugamos almas e vendemos nossas mães por isso. É prazer, o sucesso, a fama, o dinheiro, o poder, tudo numa só tacada. Que ainda por cima economiza nosso bem mais valioso, o tempo.

- Meu filho, agora é tarde. Faz agora por que depois você não vai conseguir mais.

Tudo é relacionado ao tempo empregado. Calma ou pressa. O ritmo é a essência. A batida constante, o metrônomo biológico que a gente carrega no peito. O tique-taque do relógio analógico. Acho que é esse som maldito que faz o relógio digital ser tão mais atraente. A desculpa de que não sabem ver qual ponteiro é das horas, é convenção.

Eu tô divagando, já sei.

Thiago, Sérgio, Bruno, Victor, Guilherme, Giovanni, Douglas, Ailton, Vinícius...

Nomes que não significam nada, num universo de seis bilhões de pessoas. Uma ínfima parte de uma engrenagem. Somos todos o que vocês quiserem que sejamos, de fato. Traduzimos acordes, letras, sentimentos, filosofias, harmonias. Mas quem não faz isso todos os dias? Só que a gente faz diferente. A gente faz de um jeito só nosso, inimitável, inigualável. Algumas pessoas já deram esse feedback pra nós. E por isso, hoje, queremos abraçar esses seis bilhões. Agora.

E não dá.

Trágico, não é? Ganhamos prêmios de consolação, cafunés chorosos e tocamos em frente, junto com o gado, pensando se o destino dessa boiada é mesmo a mediocridade eterna. Uma condenação dantesca pra quem quer braço do tamanho do mundo.

À partir do dia 18 de julho de 2011, esqueçamos isso.

Somos predestinados.

Seus dedos não são rápidos como os de Marcus Miller? Vão ser.
Você ainda não mudou o mundo com sua voz? Vai mudar.
A música ainda não te dá a matéria? Mas dá o espírito.
Não temos nosso nome no Wikipedia? É questão de tempo.
Você ainda não teve a paixão mais arrebatadora de todas? Vai rolar.

E se você, que lê uma coisa auto-ajuda dessas, se identifica e sabe que você faz parte desse grupo de pessoas que vão lutar pra sempre contra o conformismo e a mediocridade de quem não arrisca, me avisa. Quero gente assim do meu lado.

E quanto a mim, por enquanto, a página continua em branco.

Por enquanto.

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