Na próxima vez, vê se tira essa sombra do olho, depois da festa infinita da primeira madrugada do último fim-de-semana da sua vida. Parece um panda acordando.
Injustiça? Prefiro "crítica construtiva". Afinal, não é para eles que você pede "socorro". É pra mim. Me reservo no direito de reclamar pelo menos da tua aparência. É quando a grosseria falsa vira válvula de escape para não lembrar o quanto me dói por você não estar comigo de vez.
Sim, estou com ciúmes. Tenho esse pequeno grande defeito, e guardo no peito um paradoxo atrás do outro, sem querer me gabar. Quer ver? Digamos que eu acredite que você passou a noite sozinha. Você não me deve satisfações, mas podia pelo menos pensar que se pudesse mentir melhor seria um alento ao meu coração judiado.
Por que? Nada do que se passa nele é um segredo, principalmente pra você. Mesmo se fazendo de sonsa, eu sei que você sabe.
Minha alma é uma cômoda cheia de gavetas. Cansei de guardar coisas inúteis, como esse meu amor demente por teu sorriso, por tua pose em seu vestido collant rosa, por tua carinha de choro por qualquer besteira. Queria ouvir você ligar pra mim, dizendo pra eu te fazer companhia até em casa, no ônibus, de madrugada, depois de beijar meia festa, enquanto eu fiquei estudando que nem um desgraçado. Eu olharia meu celular com teu número piscando e até poderia ignorar, sem muita força de vontade.
Mas eu também não guardei mágoa ou crueldade nas minhas gavetas.
De qualquer forma, quero que você me peça, um dia, perdão.
E eu vou responder: "Só retribui a altura, dessa vez."
A gente esquece tudo com uma boa dose de amor incondicional, garota.
* * * *
Ih, a voz dele no interfone tava brava, como sempre.
Até parece que não acostumou comigo batendo as três da manhã, depois de mais uma balada. Mais uma fuga do mundo, naquele planeta que eu chamo de "meu", de luz estroboscóbica e batida repetitiva.
Reclamou da minha maquiagem pesada. Escondo minha feiúra bem, meu bem? Nunca fui linda, mas também nunca fui recusada. E meu sorriso, você disse, é "imbatível". Queria dizer tanta coisa, que adoro que você me elogie, que namoraria você se não gostasse tanto de ser livre, que não quero te ver com alguém pior do que eu. Queria te acordar dando beijo estalado.
Mas sei que isso vai comprometer tudo. Vai fazer nossa amizade ruir, deixar aquele silêncio desconfortável. Isso se não quiser casar logo comigo, pra não me ver fugir. Você tem cara de quem usa a instituição do matrimônio como algemas. Coloca isso na cama, tudo bem, mas isso na vida, é bem diferente.
Posso estar viajando, subestimando sua capacidade de amar sem amarrar, mas eu tenho medo. Sou humana, afinal. E sei que te machuco muito assim. Não pense que não. Seus olhares que reprovam me dão vontade de chorar, de me jogar na frente de um caminhão. Porque você tá certo.
Quando o cotidiano me dá na cara, é pros teus braços que eu corro. E quando fico forte, sem medo, saio de fininho de madrugada.
Sem nem dizer que sou grata.
E que você pode me amar de verdade.
Outro dia. Outro dia...
Perfeito! Arrasou, mais uma vez! ;)
ResponderExcluir