Atrasou.
Antes, já tinha atrasado várias vezes. Te deixei plantado que nem um palerma na estação do metrô, achando que eu ia sair por um lado e eu saí pelo outro. Também teve aquela vez que eu saí do cursinho mais cedo e esqueci de você lá na frente, passando frio e chuva.
Claro, compensei sempre minha demora. Mas mesmo assim não evitou de você me deixar antes que eu te atrasasse mais.
Mas e agora? Será que dá pra compensar com essa novidade?
Acho que o atraso por si só é uma compensação compulsória. Pro resto da vida. Achei que, quando acontecesse com a gente, eventualmente, daqui uns seis anos, eu estaria apavorada. Ainda não estou porque não caiu a ficha, fato. E por que você não está aqui comigo.
Deveria estar furiosa também. Eu te avisei um milhão de vezes, "olha essa camisinha". E você garantindo que tudo estava certo. Que sempre olhava, pra ver se não tinha furado. Taí, espertinho. Uma grande novidade pra gente.
Atrasou.
* * * *
Comprei a brita e o cimento, amor. A casa vai sair do papel.
Como que tá o pequeno? Amamentou bem?
Eu sei que o puxadinho não é muito, mas fiz financiamento, a gente paga aos poucos. Vai revendendo seus produtos de beleza em casa, pra dar uma ajuda. Se eu tivesse passado no outro concurso, nao ia precisar...
Mas é o que tem pra hoje. Vamos nos virar bem, prometo.
Ah, isso de vidro que eu te mandei no saquinho separado é pra dar sorte. Comprei numa feirinha. Sabe, aqueles móbiles que quando o vento bate, fazem barulho. Deixa o nenê tranquilo, parece.
Eu sei que mandar carta de uma cidade vizinha é meio idiota, tô viajando só por uma semana. Ossos do ofício, é o que dizem. Logo, logo tô de volta, gata.
Outra coisa.
Não atrasou nada.
Chegou bem na hora.
Eu te amo.
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