quarta-feira, 22 de junho de 2011

Romantismo

O uísque permanecia com água estagnada em meu copo.
As cinzas do charuto ainda aceso estavam espalhadas pela mesa, dando mais um sinal da minha possível embriaguez. O torpor de minha voz embargada pelo sono não era audível. Infrasom.
O telefone soava como um gongo chinês no meu ouvido. A ressaca fazia tudo parecer dolorido e latejante. Eu latejava. A poltrona latejava. O charuto latejava. A luz bruxuleante da lâmpada por trás da fumaça também.
O telefone falou:
- Por que você gostou de mim?
A catarse cessou imediatamente. Minhas pálpebras me obedeceram e eu abri os olhos.
- Eu não posso responder isso.
Silêncio. A voz do telefone mastigava as palavras, uma por uma.
- Não?
Eu sorri, com o canto da boa. As coisas foram parando de pulsar de dor.
- Não.
- Por que?
- Porque eu te conheço de outras vidas. E a resposta morreu junto. Eu só te amo por que eu sempre te amei. Até antes de te conhecer.
A metafísica do amor sempre foi engraçada. E o romantismo também.

Pra falar a verdade isso tudo é romântico. O uísque se torna cachaça. O charuto é um cigarro barato. A luz é uma lamparina. E o telefone é a voz no meu ouvido.

- E tem mais uma coisa.
- Diz.
- Não conjugo verbos no passado.

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