Me peguei tocando nas paredes pra ver se elas não eram de papelão.
Deu vontade de me arremessar contra aquele falso concreto que me cercava, revelando bastidores obscuros, LEDs de câmeras moderníssimas e olhares incrédulos da minha produção. O diretor, com a rosquinha na mão, estático, no meio de uma mastigada.
Ou melhor, deixo estar. E faço tudo que não estão acostumados a transmitir.
Ajudo velhinhos a atravessar a rua. Faço sopa dos pobres. Adoto uma criança com síndrome de Down. Faço alguém se apaixonar por mim sendo pobre, feio e burro.
Enfim, coisas que não dão audiência.
Eles ficariam irados, mas tinha que ser algo mais surpreendente. Que fosse entalhada na memória como corações nas árvores (que não têm nada a ver com nosso amor) e ferro em brasa em gado (que também não tem nada a ver com nossa ganância).
O triste de estar confinado nesse show da realidade é que você corre o risco de sair da casa todos os dias. Sem anjo pra te salvar. Só líder pra te colocar no paredão. Sempre dá recorde de votação, o que te apavora. E lá, a primeira regra é não ter regra. Ao passo que a segunda regra é estar atado às regras.
No fim, não é esse cenário de nossa vida que nos sufoca.
É a nossa fraqueza em melhorar nossa programação.
E cobrar fidelidade de quem nos assiste.
Pela tela plana ou pelo braço mesmo.
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