Era a única fonte de luz, naquela noite escura de setembro.
O fogo se alastrava, desesperado, procurando oxigênio. A chama, a labareda são os exemplos do desespero mais puro: pra poder queimar mais, eles vão atrás de qualquer coisa, o que vier pela frente. Quando não encontram uma fonte para alimentar sua fome fumegante, aquecem até o ponto do insuportável.
No final, entre cinzas e fumaça preta, o fogo é a coisa mais implacável do mundo.
E naquele prédio velho, não foi diferente
* * * *
Não era mais um rapaz. Faz muito tempo, por sinal.
Com seus noventa e tantos, o velho respirava com dificuldade. Mas conseguia ainda se locomover, em suas rodas de liga leve e alumínio. E sozinho, sem ninguém pra empurrar. Descia até escadas. Ah, não descia, não. Isso era uma década atrás. O Alzheimer já estava ali, abraçado às memórias difusas do idoso. Seria o próprio mal batendo na porta?
Foi atender.
"Vovô? Sou eu, Laurinha."
Quem?
"Sua neta."
Ah.
"Te trouxe uns doces, pra você comer escondido. Sei que sua diabete não deixa, mas..."
Por que essa menina está chorando? Suba logo, eu tenho mais o que fazer.
Laurinha vestia uma saia, meia-calça e um casaquinho preto. Mas nada se comparava ao cachecol colorido, que se fazia presente na sala. Era como se aquele lenço de lã fosse a vida naquele apartamento sujo. A empregada não vinha. O tempo também. Tudo empoeirado, não era surpreendente que o senhor da cadeira de rodas vivesse tossindo.
"Tá tudo bem, vô?"
Hum.
"Eu vou deixar tudo aqui, pra você, tá bom?"
Deixa, deixa.
Silêncio.
Laurinha?
Ela ficou pasma. Nunca o velhote tinha dirigido a palavra pra ela. Sequer tinha dirigido o olhar. Agora as duas gotas azuladas entre a cara enrugada fitavam ternamente aquela moça querida, com a pele encrispada pelo frio cortante da rua. E, emocionada, ela atendeu.
"Sim, vovô, pode falar!"
Chegou a hora. É melhor que você saia.
"...a hora de que? Você está me assustando, vô..."
Laurinha, querida. Não fique chateada. É sempre assim que acontece...
"Não, vovô. Não vou te deixar. Vou ficar com você até o fim!"
Minha pétala de flor. Se você ficar, não posso garantir sua segurança.
"Como assim?"
Por favor. Saia. Agora.
"Vovô...?"
O velho virou a cadeira, com habilidade. Ele suava. Se Laura tocasse em sua pele, iria pensar em febre extrema. Mas isso não aconteceu. O velho se trancou em seu quarto, sob os protestos da cuidadosa neta. E ela resolveu, depois de um tempo, ir embora. A cabeça do avô estava em frangalhos, caducando, provavelmente depois de um tempo nem lembraria do que falou para ela.
E, mesmo sentindo cheiro de carne queimada, ela fechou a porta. Pela última vez.
* * * *
Laura estava chorosa, nos braços de um bombeiro, que evitou que a menina desesperada invadisse aquele prédio já prestes a cair. Se o avô estivesse lá dentro, ele já tinha virado cinzas. Irônico, era como ele queria ser sepultado...
Alguma horas depois, o que sobrara daquela construção expirava uma névoa negra de suas janelas. Os moradores eram interrogados pelos policiais, a fim de descobrir o que acarretou o início do incêndio. Laura estava inconsolável. Pensou em ligar para os pais, mas sentiu cansaço. E algo segurou seu corpinho frágil e pálido naquela ambulância, onde foi instalada até ter notícias do apartamento de seu parente.
E teve.
- Senhora! - interpelou o bombeiro, estarrecido - Senhora!
- Sim...?
- Encontramos algo no apartamento do seu avô!
Um embrulho pequeno estava nos braços do homem. Ele tinha um olhar grave, como se não pudesse explicar o que carregava. E não podia mesmo.
Era um lindo bebê. De olhos cor-de-água.
E Laurinha soube que nada tinha acabado. Só estava começando.
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