Transpiração.
Esse ato involuntário que nosso corpo faz. Glândula sudorípara. O nome é tão bizarro que Lucas decorou. Pudera. Suar é o que ele mais fez nestes últimos dois meses. A barra fixada na porta do quarto foi o instrumento de guerra contra a má forma, às vésperas de mais um verão alucinante. O mais alucinante, na opinião de Lucas, pois agora não era mais um garoto magrelo, de braços compridos. O ponto de referência:
- Tá vendo o magrão de calça jeans ali? A única sala à direita dele.
Ia ser o fortinho. Ia poder usar camiseta colada no corpo, pra realçar os novos músculos. Ia andar de regata na rua, só pra mulherada ver os bíceps. Ia intimidar quem quisesse botar pra frente, resolver uma diferença ou acabar com aquela treta. E ainda por cima, ia ficar com a lindíssima da Patrícia.
Mulherão. Passeia de shortinho e top na orla do Leblon. Ele andava de bicicleta, sempre no mesmo sentido, só pra ver o movimento daquele corpo bem estruturado, bronzeado. Fixação no suor dela? Temos, sim, senhor. A gota vinha da testa, descia lentamente pela bochecha esquerda, pendia no queixo fino, descia pelo pescocinho e, por fim, mas não por menos, entrava pelo vão da felicidade que fica entre os dois seios redondos de Pati.
Eu disse Pati? É, tomei essa liberdade, a única que eu não preciso pedir. Ainda.
Enfim. Lucas deixava os outros ciclistas, que pedalavam em velocidade normal, só para acompanhar aquele avião rasante nas areias do Rio de Janeiro. Até que um dia, ela se tocou.
* * * *
Transpiração.
Já não se sabia o que era água do mar, água da garrafinha do quiosque ou suor mesmo, no belo e torneado corpo de Patrícia. Muitos anos de luta para deixar de ser a gordinha do colégio. É, acreditem, ela era AQUELA gordinha. De aparelho, renegada pelos populares, aceita pelos nerds. Apesar de não ser nerd. Depois de receber uma tortada na cara, em pleno baile dos anos 80, festa conhecidíssima da pré-formatura de Ensino Médio, arruinando todo o vestido feito sob medida para a formosa Patizuda, a pequena enorme resolveu mudar o estilo. Reviravolta, meu bem.
Entrou numa academia, num regime e numa guerra contra as células adiposas, tudo ao mesmo tempo. Por pouco não entrou na bulimia e, por via de consequência, numa clínica. O pré-vestibular ficou debilitado, mas os pais sabiam que, com auto-estima, ela conquistaria tudo. A mãe, também ex-gordinha, entendia a filha. E assim, a maromba tomou seu espaço e aquela gordinha virou uma quase modelo, graduanda de Matemática, com seus amigos nerds.
E, numa de suas corridas na praia, percebeu que um rapaz estranho andava próximo dela, de bicicleta. Próximo demais.
* * * *
P: Oi? Posso te ajudar?
L: Err...hum...ahn...
P: Do you speak portuguese?
L: Claro que eu speako português. Quer dizer...
P: Hahaha...
L: Hehe...
P: ...eu conheço você.
L: Conhece?!
P: Claro! Pô, Lu, vai dizer que não lembra de mim?
L: Hum, Pati?
P: Isso! Amiga da sua irmã, que você atazanava quando eu era gordinha!
L: Gordinha?
P: ...tá, gigante.
L: Assim é melhor.
P: O que você tá fazendo aqui?
L: Eu ando de bike todo o dia por aqui.
P: Como que eu nunca te vi?
L: (pensando) Porque eu fico andando um pouco atrás, pra ver sua bunda?
L: Porque eu paro aqui no Posto 9.
P: Ah...
L: ...
P: ...
L: ...bom, eu vou indo!
P: Hum, tá certo, a gente se fala! Manda um beijo pra Gi!
L: Mando sim. Tchau, Pati.
P: Tchau, Lu!
* * * *
Assim acaba-se um flerte com a amiga da irmã. Não se iluda. Elas são inalcançáveis.
E por favor, não sejam tolos. Sua irmã NÃO vai fazer sua fita com a amiga.
Ela vai no máximo, sei lá, falar que você não ronca. Mas range os dentes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário