quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O que deixou de ser

Oi.

É, comecei errado. Deveria ser um "tchau".
Mas já que tudo na minha vida, - e, por via de regra, na nossa - eu comecei errado, não ia ser agora que eu acertaria.

Você continuou dormindo, como se nada tivesse acontecido. Sua cabecinha dourada com seus cachos repousava o sono dos justos, esquecendo do meu coração agonizante do teu lado. O travesseiro de plumas não adiantava. A cama ortopédica não tirava a dor. Era por dentro, sempre te disse isso. Você não acreditou.
Eu sei que você me traía. Não, não me entenda mal, traição não envolve só o físico. Você me traía com suas palavras de amor vazias. Com seus gestos levianos e dissabores que você sabia que eu não tinha a menor idéia de como resolver. Queria só me torturar.

Tudo bem, assim parece que você sempre foi uma megera. Não. Eu amei você um dia e foi por algum motivo, perdido nas areias desse tempão juntos. Quatorze anos. Mais que um tempão, você diria, com aquele ceticismo nojento...
Mas voltemos ao nosso antigo amor. Ah, o nosso antigo e insaciável amor. Você até achava bizarro, a gente se querer tantas vezes. Eu não. Achava natural. Era tão lindo. Hoje, mal olha na minha cara e se eu esboço qualquer tesão, você torce o nariz e diz que tem que acordar cedo demais pra fazer aquilo, que ficasse pro final de semana. O mesmo final de semana reservado para gastar saliva em seus coquetéis, coisa que você sempre desprezou fazer.
Onde foi que nos perdemos? Que lugar de nossa história você foi para um lado e eu para o outro? É triste acordar do lado de alguém desconhecido, sabe.

A partir de hoje, vai ser diferente. Revolução, meu ex-amor, revolução. Meu ideal socialista saiu do estado latente em mim e agora vou mudar a minha vida. Você, infelizmente não está inclusa na mudança. Vou sentir falta de nossas noites à luz de velas, com vinho barato e miojo, por não ter grana pra comprar coisa melhor. Você improvisava um molho branco com creme de leite e eu comia, fingindo que era a melhor coisa do mundo. Você notava, me cobrava e nos amávamos, para depois aquilo virar motivo de risadas o dia todo, a cada ligação no trabalho, a cada encontro aleatório na faculdade.

Eu sempre acho que foi o dinheiro que matou nosso amor. Mas não.
Foi você mesma, que tinha um parasita dentro do seu corpo e nunca soube.
Se você ficar magoada e não quiser me procurar, tudo bem.
Se você acordar e ver que eu sou o homem da sua vida, tudo bem também.

Sempre quis e sempre vou querer o seu bem.

Agora vou atrás do meu.

Daquele que era sempre seu.

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