terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quase

Vinte horas.
Seu pai sempre disse para Roberto, desde pequeno, que ele teria que matar um leão por dia, que a vida não seria nunca fácil para ele. Mas vinte horas acordado era demais. O ônibus que ele dirigia, todos os dias, entre os trabalhos de vigia, de madrugada, e vendedor, à tarde, parecia andar em câmera lenta. A visão de profundidade de Roberto também estava debilitada. Meio tonto, só pensava em ir pra casa.

Marina estava sentada, esperando condução. Fazia isso diariamente, mas dessa vez, ela não vai voltar tão cedo pra casa. O ponto de ônibus não ia ficar de pé por muito tempo. A placa de metal voaria sete metros, sob movimentos centrífugos e assassinos. O concreto e os paralelepípedos seriam esmigalhados por toneladas de metal retorcido. Será que sangue corrói? Ou enferruja? Enfim. Era a oportunidade perfeita de verificar isso.

Roberto sonhava.
Sempre quis um barquinho, com o nome da esposa Salete, pintado na proa. Iria velejar em alto mar, pescando com uma rede de náilon, feita por ele na madrugada passada. Faria uma grande peixada no final de semana, convidaria a família toda. E depois, fumaria seu cigarro de palha, vendo o Fantástico e os gols da rodada do Campeonato Brasileiro. Seu time, o Vitória da Bahia, teria ganho do Botafogo por dois a zero. Comemoraria muito o segundo gol, por cobertura, feito por Henrique, o camisa sete. E sorriria, sabendo que os torcedores do Esporte Clube Bahia, que haviam apostado um fardo de cerveja, teriam que ouvir suas chacotas, sem muito o que fazer.
Mas alegria de pobre é sonhar na hora errada. Pobre tem que agüentar no osso. Roberto não agüentou.

Marina não viu o ônibus chegar.

Roberto não enxergou Marina, sentada.

É a vida do proletário. Brasileiro, vietnamita, congolês, russo, costa-riquenho. Você vai brincar disso um dia. Às vezes eu acho que os gregos eram profetas. Aquela história do Hércules e seus doze trabalhos. Era o futuro e eles sabiam. Somos todos Hércules.

E com força de semi-deuses.

Roberto passou reto por Marina, nem chegou perto de parar. Ela ficou surpresa por estar tão distraída que não lembrou de fazer sinal para parar o transporte coletivo. Preferiu ir à pé, a menina podia pegar carona, se desse sorte, com sua colega de classe, Clarissa.

Duas horas depois, um carro pilotado por um homem embriagado se jogou como uma bola de boliche contra este mesmo ponto de ônibus, matando a si e os cinco cidadãos que nem tiveram chance de reagir.

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