Nossa.
Esfreguei os olhos, ainda sem reconhecer o lugar.
Tudo bem que o dia nublado e escuro não dava trégua, mas lá era tão familiar para mim que eu fiquei estarrecido com o estado das coisas. Não era mais aconchegante, era assustador. Era lá que você estava escondida mesmo? Um lugar sem luz, sem água, com as janelas quebradas. Vejo que fiquei muito tempo longe, sem cuidar das plantas, sem arrumar a casa. Mas eu tinha certeza que ainda estava por aí.
Pulei a cerca, que não era tão hostil antes.
Andei pela grama seca e amarelada.
Empurrei a porta, que rangeu furiosamente, como se fizesse força para que eu não entrasse. Você deve ter escutado, de modo que seus passinhos apressados ecoaram pelo assoalho. Não correndo para me encontrar, com aquele seu sorriso que eu tanto gostava. Mas para fugir. Porta batendo no segundo andar.
Olhei pela casa. Nada que lembrasse que eu já estive ali antes. Nenhuma foto, nenhuma carta, nenhuma palavra. Apenas lugares que você esteve, pessoas que encontrou, seus pais. Mas de mim, nada. A sala estava empoeirada, os móveis não viam sinal de um pano limpo há dias. Passei os dedos pela mesinha de centro e os esfreguei, tirando o excesso de pó. Comecei, lentamente, a subir as escadas. Um passo de cada vez.
O carpete da casa estava carcomido até. As portas todas fechadas. Entrei no quarto dos sinos e nada de você. Uma cama com a mola solta só. Onde estava a janela dava espaço ao som eclesiástico que nos abençoara um dia, tábuas pregadas nas paredes.
Fui procurar no quarto ao lado, o quarto de hotel. O chuveiro estava inutilizável. Uma televisão chiava, com defeito. Algumas cenas de um desenho do Homem-de-Ferro piscavam no meio da estática. Era a única fonte de iluminação do quarto, que tinha um ar saudoso. Tinha certeza que ouvi risos e gemidos distantes.
Sentei no chão do corredor, pensativo. O que aconteceu aqui?
Vi o papel de parede que colocamos juntos, de cor de céu azul, caindo aos pedaços. As lâmpadas incandescentes oscilavam. Me ergui e comecei a caminhar novamente, à sua procura. Ganhei o corredor e cheguei na frente da última porta do segundo andar. A sala vazia.
Nada tinha acontecido ali ainda. Nós combinamos que, no ano-novo, íamos entrar nessa sala e começar a montar sua mobília, aos poucos. Você estava lá, encostada na parede, de cabelo novo. Tinha um olhar vazio, como se eu fosse um desconhecido.
- O que houve? - perguntei
- Nada. - você limitou-se a sorrir - Eu só não senti mais sua falta.
- E esse lugar? Ele era tão mais bonito. - suspirei
- Quando nos perdemos, eu parei de cuidar. - você fez bico, como fazia sempre - Não tinha graça nenhuma cuidar sozinha.
- Eu imagino... - murmurei
Silêncio. Eu queria começar a arrumar tudo de novo naquele momento, mas não sabia como te pedir ajuda. Afinal, você ficou aqui, sozinha, e eu não voltei mais. Com certeza, pensou que não fazia diferença para mim estar ali ou não. Maldita hora em que eu fui para um lado e você para o outro, sem combinar nada. Peguei o metrô da despedida e você foi no ônibus da saudade. Não chegamos no mesmo destino, aquele dia. E só hoje consegui voltar pra casa.
- As nossas fotos... - comecei, corado de vergonha
- O que que tem?
- Você ainda tem elas?
Você me encarou. Eu estava de cabeça baixa, mas podia sentir seu olhar. Você riu.
- Ah, você não muda mesmo, não é?
- ...
- Você sabe o quanto eu sofri.
- Sei sim.
- Não foi uma pergunta, bonito.
- Ah.
- Vem comigo.
Você me pegou pela mão, voltando para o corredor. Eu não senti um toque quente e apaixonado. Senti um aperto firme e calejado de quem já chegou no seu limite. Saímos da casa, pelos fundos. Demos a volta no terreno e na lateral da construção, duas portas de madeira que davam para o porão. Um cadeado grande trancava a entrada.
- As nossas coisas estão aí. - você falou, categórica
- Tudo?
- Aham.
- E cadê a chave desse cadeadão aí?
Senti seu rosto iluminar um pouco, do jeito que era antes. E você desafiou, percebendo minha disposição em fazer tudo que fosse preciso.
- Você vai ter que descobrir.
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