sábado, 23 de abril de 2011

Som Etílico

Mais uma noite chuvosa na minha cidade. Naquele breu maravilhoso, que lembrava a famigerada cidade do pecado e da luxúria que estava lá fora, meu sofá me engolia, mastigava minha casca podre, com suas mandíbulas de couro. A garrafa de vinho jazia no carpete, pela metade e com o gargalo quebrado.

Uma lâmpada incandescente balança, com a fiação mal feita. Ilumina certos pontos que eu nem conhecia no meu pulgueiro. Um móvel que eu não sei definir sua serventia, com um revólver negro em cima, repousando, flutuando quase. Um monte de jornal sujo, numa pilha fétida. Usava pra me proteger da chuva, de modo que não conseguia me desfazer de algo que me ajudou tanto. Valor sentimental digamos. Fora que me mantinha sóbrio lendo. Jornais da semana passada, do dia anterior. Descobri que o mundo tinha entrado em crise econômica três meses depois da queda da bolsa. De resto, algumas cadeiras, uma mesa empoeirada e um abajur quebrado. Toda essa tralha jogada num canto, esquecida, renegada por seu dono.
Diabos, o dono da casa toda, já que, digamos, me apropriei do local quando cheguei.

Levantei, meio grogue, das garras da poltrona. Cocei a bunda, juntei meu Vinho do Porto do chão, meu .38 do negócio de madeira e saí porta afora, sem saber o que me aguardava. O senhorio não se importava. Que lástima, tudo estava assim hoje em dia. Somos inquilinos de um planeta cujo senhorio está pouco se lixando se você está limpando o rabo na cortina ou quebrando a prataria.

- Só tenho uma única condição - ele disse, no Começo - para que vocês, miseráveis, mortos de fome, fiquem nesse lugar esquecido por Mim...

E, sorrindo com seu dente de ouro, sentenciou, com aquele tom escarrado e irônico d'Ele:

- ...não parem de tocar o Blues.

Oh, Senhor!
Jamais paramos.
E que louvado seja o filho-da-puta que criou a harmônica!

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