- Vou para Portugal.
- O que?
- Sim. Preciso dar uma boa olhada em alguns ouriços.
- Ouriços...?
- Sim. E dar algumas aulas, via de consequência. Voltarei logo.
- Você não é mais um jovem, Sigmund, é um senhor. Tome cuidado com esse frio.
- Sim, obrigado por sua preocupação, meu caro Jones.
- E fale com Carl. Ele estava preocupado.
- Ele continua rezando.
- Talvez. Eu também penso que ele está sendo um tolo, mas...
- Não foi uma pergunta, Alfred. Carl Jung está cada vez mais irreconhecível. - Sigmund sacou seu relógio de bolso de dentro do sobretudo - Bem, não posso mais me demorar, meu navio parte em uma hora. Até mais, meu amigo.
- Até! Volte logo para Londres, estarei esperando!
A viagem foi relativamente rápida, devido ao sono tranquilo de Sigmund, na sua cabine especial dada por cortesia da companhia hidroviária. O velho e famoso neurologista sonhava com uma aula do mestre Schopenhauer, que carregava uma pequena jaula, com um pequeno animal, coberto de espinhos, e dizia, com seu sotaque carregado:
"Este é o Erinaceus europaeus, vulgarmente conhecido como ouriço-terrestre. Ele vive em áreas do oeste da Europa, como Portugal e é um roedor bem versátil. Mas o que ele estaria fazendo numa aula de psicoanálise? Alguém poderia, por gentileza, me responder? Freud?"
Um jovem Sigmund se ergue da cadeira, corado pelos olhares cravados em suas costas retas. E, puxando todo o fôlego que pode, diz tremulamente:
- Creio que o senhor irá discorrer sobre o Dilema do Ouriço, supracitado em seu último livro, Parerga e Paralipomena, senhor.
"Mas é claro que sim, meu caro Freud! Afinal, é o que você quer ouvir, mais uma vez, correto?"
- Sim, senhor. Estou viajando para Portugal com o fim de me aprofundar nestes estudos.
"Oh, entendo. Pois bem. É sabido que sou pessimista. Nem eu mesmo sei porque fiquei tão famoso ao relatar esta minha melancolia, mas enfim. Sou um estudioso, não um sábio. Sabedoria é própria de corações ingênuos, que conhecem por meio da experiência individual. O estudo é o final da ingenuidade previamente adquirida, nós deixando órfãos da possibilidade de arremessarmo-nos em um abismo de insanidades e displicências. Quem é dono do conhecimento, tem uma maldição nas mãos. E é por isso que eu comecei a estudar sobre a vida humana, de modo que possamos viver uma existência mais digna, mesmo possuindo conhecimentos, tanto empíricos quanto o teoricamente adquirido."
O velho mentor de Sigmund respirou fundo e procurou embaixo de sua mesa outro ouriço, o qual colocou dentro da jaula.
"No entanto, é preciso dizer que os seres em geral passam psicologicamente pelo mesmo problema de ordem fisiológica dos ouriços. Observe."
Freud aprumou os óculos fundo-de-garrafa e apertou os olhos, tentando enxergar o que faziam os pobres animais. Tentavam, desperadamente, se esquentar do clima glacial do inverno de Viena, mas não era possível fazer isso sem se machucarem com seus espinhos. Guinchavam de dor, até o momento que era preferível o frio que aquele suplício. E tremiam, longe um do outro.
"Veem? É isso que acontece conosco. A aproximação das pessoas causa naturalmente danos mútuos às partes envolvidas. Porém, precisamos de alguém para dividir nosso calor, fugir do inverno gelado da solidão. No momento em que um indivíduo se acostuma a essa 'ausência de calor', ele se torna auto-suficiente, como eu, por exemplo. O ostracismo se torna parte do cotidiano, não é encarado como algo ruim, e sim como parte da Natureza."
Nesse momento, Freud acorda, com o estômago revirado pelos pensamentos. Não, ele pensa que foi algo que comeu, na verdade. Vai até o banheiro e vomita. Limpa a barba branca e lava o rosto.
Como sempre, o mentor continuava afiado. E o velho resolve usar um pouco de cocaína, antes de chegar ao destino.
O sonho de Sigmund Freud terminou abruptamente, naquela viagem enfadonha. Mas o seu final era fácil de deduzir.
O professor Schopenhauer, sozinho. Com seu egoísmo e medo de rejeição disfarçado de independência. E conseguindo enganar a si mesmo com maestria.
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