Não sei o que deu em mim.
O Manda-chuva - vulgo Deus - deve ter achado graça e me escolheu, deixando essa habilidade, essa maldição de extrair, filtrar, reciclar as idéias e enfeitar de um jeito diferente. Mais claro ou mais bonito, não importa muito o resultado. Importa é o desenrolar das coisas.
E eu vejo o desenrolar. Vejo o enrolar também, mas prefiro fugir de enrolação - já tenho, em um quinto de vida, muitas pra contar vantagem -, ao passo que gosto do que é clichê transformado, o velho garoto de hospício que repete tanto uma frase que, na simples troca de um tom de voz, de uma letra, faz com que ele pareça mais curado. Ou menos insano, sei lá.
Divagação de merda, né?
Enfim, é uma verdade absoluta que, sem percebermos, nos jogam nesse abismo chamado vida real, sem pára-quedas. Só temos nossos dentes, unhas e a massa cinzenta como armas. E se você não sabe conjugar o uso de tudo isso, amigo, pode começar a se conformar.
Você vai dançar.
E eu soube disso antes de cair na cilada. Antes de saber que vivia numa simulação virtual da vida, num sonho de computador. Era tudo muito belo, até demais. As pessoas que me cercavam. Os presentes que me davam. Eu desconfiei, como já era de praxe. Por que as pessoas me amavam tanto? O que eu fiz para merecer aquilo tudo?
O tempo passa mais devagar quando se está sonhando.
Enquanto a Vida corria em passos largos, o Sonho se arrastava em minutos lânguidos, como um rato doente. Então, conheci aqueles que já Viviam e não mais Sonhavam. E eles disseram:
"Você tem duas opções. Você pode continuar vivendo nesse lugar lindo, fingindo que não
sabe que tudo é uma ilusão e que não vai dar em lugar algum. Ou pode descer, vertiginosamente para o fundo de tudo, preparado (relativamente) para as provações da Vida Real. Que não são poucas, já posso adiantar. A escolha é sua. Sempre foi."
Escolhi me desconectar.
E aqui estou eu. Com as unhas em riste, dentes afiados e massa cinzenta sob sinapses constantes. Me concentrando ao máximo para não ouvir aquela voz baixinha, sussurrando, quase sibilando em meu ouvido:
- Quero meu sonho de volta.
É. Não raro, fico pensando nisso.
E ainda não sei o que deu em mim.
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