sábado, 15 de janeiro de 2011

Dia Chuvoso

Albertina era uma mulher teimosa. Como uma mula, era o dito dos vizinhos, naquela cidadezinha de interior. No alto de seu meio-século de vida (ou seria mais?), só tinha sua filha, que morava na capital, a quem podia chamar de família. O resto estava ou morto ou longe demais para manter qualquer comunicação. Excetuando esporádicas cartas ou cartões de natal, um ano sim e o outro não.
Bem, quando o presidente da associação do bairro, que conhecia todo mundo, teve a incumbência de transmitir a mensagem da Defesa Civil que uma chuva torrencial estava na iminência de inundar a cidade, sabia que Dona Albertina seria osso duro de roer: no dia que aquela mulher deixasse tudo que tinha por causa de uma chuvinha - cuja possibilidade nem tinha tanta credibilidade assim -, galinha criava bico. Aqueles metereologistas imbecis nunca acertavam a previsão, Albertina cansara de sair com guarda-chuva, fazendo sol e com roupa de frio na bolsa, fazendo calor.
Infelizmente, aquela tarde de janeiro seria o dia em que os imbecis acertaram.

* * * *

"Ih, vem temporal por aí"
Não foi uma conclusão genial, mas talvez fosse a mais inteligente que Roberto tinha em meses. Mesmo fazendo faculdade (particular, no caso), ele era esforçado, mas Deus não tinha lhe fornecido muitos neurônios. Mas nada que não fosse compensado pela vontade de Beto, como era chamado por todos. O rapaz batalhava.
Resolveu visitar a familia, com o pretexto de curar a saudade. O que ele queria curar mesmo era a ressaca do Revéillon, que foi regado a champagne francês, uísque caro e muita cerveja. Quando lembrou da última noite do último ano, sentado naquele ônibus velho para o interior, o estômago de Beto chiou e embrulhou.
Enquanto isso, fora do veículo que se balançava na estrada velha, os relâmpagos iluminavam a tarde escura e Beto teve um calafrio, daqueles de gelar a espinha. Vinha coisa ruim por aí. O celular tocou. "Olha aí, já começou." pensou o rapaz.
- Alô. Oi, mãe. Sim, tô no ônibus. Faltam uns... cinco quilômetros, sei lá. Corda pra amanhã? Na loja do seu Juca não tem? Ah, tá bom. Eu compro. Tô chegando. Até mais. Beijo. Te amo.
Esclarecimento básico. Colher um cacho de banana exigia muita destreza. E para o pai de Beto, era um trabalho solitário. Como não havia espaço no quintal para pousar uma árvores desse porte, tombada, era preciso subir numa escada, amarrar uma corda na base do cacho e usar os galhos como uma roldana natural. Ou chamar alguém para ajudar a descer as pesadas frutas, o que era inaceitável para o orgulho idoso de seu Damião.
- Se esse rapaz não estiver aqui e der cacho, vou ficar dependendo dele pra colher? Não, senhor! - repreendia, indignado
De qualquer forma, a bananeira tinha seus dias contados.

* * * *

A família de Beto chorava, emocionada.
A chuva continuava despejando toda sua fúria sobre a terra, como se aquele povo do interior, tranquilo e inofensivo, merecesse. E talvez merecesse mesmo. Toda aquela quietude, simploriedade. Dava nojo até em São Pedro.
Dona Albertina tomou coragem e foi olhar pela sacada. Foram dez metros de escalada, do terraço em ruínas até a casa de três andares e quintal arrasado dos pais de Beto. A sua pequena construção foi levada pela correnteza inclemente do Rio Cupuá, que cortava a cidadezinha. A água chegava aos cinco metros de altura.
Albertina voltou, catatônica. As lágrimas corriam soltas pelo rosto levemente enrugado, mas não tinha expressão de quem chora. Foi até a sala onde seus salvadores estavam. Beto tratava das mãos, queimadas pela fricção da corda ao içar D. Albertina do destino fatal e cruel que se aproximava, enquanto permanecia em sua casa.
Dona Guilhermina, mãe de Beto, fazia a atadura aos prantos. Seu filho salvara a vizinha! Graças a Deus, ele estava aqui para salvá-la. Damião não poderia fazer nada, já não tinha a força de antigamente. Mas Beto, mesmo mirrado e magrinho, era jovem. E esforçado. Nunca deixaria alguém em dificuldade, se pudesse fazer algo. Ele iria até o fim. Tinha orgulho dele, queria falar, mas não sabia como. Não era o momento.
- Calma, mãe. Tá tudo bem. - sorriu Beto - Viver é mais importante.
Disse isso olhando para Dona Albertina, que ainda estava em outro mundo.

Incrível.
Às vezes, a chuva cai do céu na mesma proporção das nossas lágrimas. Mas, por trás da tempestade, o Sol continua forçando sua entrada. E seus fachos hão de continuar a nos iluminar, agora e na hora de nossa morte.
Amém.

In memoriam às pessoas vítimas de nossa natureza, assim como eu já fui um dia.

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