quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Enfim

Cheguei.

Finalmente, meu espírito livre, perdido naquele pedacinho de terra, me alcançou na estrada.

No dia que fui embora, ele ficara, se despediu de mim no aeroporto. E foi beber cerveja nos barzinhos, em minha homenagem. Em seguida teve um baita jantar, curtindo um narguilé. Saía perto das onze e voltava só as quatro da manhã, irrepreensivelmente bêbado e feliz.
E de vez em quando, meu espírito ligava pra mim, interurbano, não podia demorar muito, ia gastar o bônus do celular. Eu falava pra vir logo, que ficava difícil viver sem mim, que tinham coisas sérias acontecendo, um amor bonito, uma missão complicada, uma busca por sucesso. E aquela alma, separada do corpo de origem, tentava compreender mas, ao desligar, voltava sua atenção para a casa vazia. Aquela antiga morada de uma trindade de amigos, a geladeira rabiscada e os acordes de violão que outrora habitaram os ouvidos daquele prédio. E pensava.

Era hora de ir também. Quanto mais cedo partisse, mais cedo voltaria. Para aquela droga viciante que era aquela terra, para aqueles rapazes e garotas que pareciam até blasfêmias, de tão divinas que são suas existências. Fez as malas e fechou a porta do apartamento 103, pela última vez.

Hoje, há quem diga que o cheiro dele ainda paira pela casa e quem mora lá diz que a casa é mal-assombrada. Besteira. É só uma visita nossa, enquanto dormimos e sonhamos com um passado em que a vida era um copo após o outro, uma aula após a outra, um dinheiro aqui e ali e o futuro sendo construído em linhas tortas.

É, agora posso dizer.
Cheguei, de fato.

O show começa agora.
E ele, como o poeta já disse, não pode parar.

2 comentários: