Cheguei.
Finalmente, meu espírito livre, perdido naquele pedacinho de terra, me alcançou na estrada.
No dia que fui embora, ele ficara, se despediu de mim no aeroporto. E foi beber cerveja nos barzinhos, em minha homenagem. Em seguida teve um baita jantar, curtindo um narguilé. Saía perto das onze e voltava só as quatro da manhã, irrepreensivelmente bêbado e feliz.
E de vez em quando, meu espírito ligava pra mim, interurbano, não podia demorar muito, ia gastar o bônus do celular. Eu falava pra vir logo, que ficava difícil viver sem mim, que tinham coisas sérias acontecendo, um amor bonito, uma missão complicada, uma busca por sucesso. E aquela alma, separada do corpo de origem, tentava compreender mas, ao desligar, voltava sua atenção para a casa vazia. Aquela antiga morada de uma trindade de amigos, a geladeira rabiscada e os acordes de violão que outrora habitaram os ouvidos daquele prédio. E pensava.
Era hora de ir também. Quanto mais cedo partisse, mais cedo voltaria. Para aquela droga viciante que era aquela terra, para aqueles rapazes e garotas que pareciam até blasfêmias, de tão divinas que são suas existências. Fez as malas e fechou a porta do apartamento 103, pela última vez.
Hoje, há quem diga que o cheiro dele ainda paira pela casa e quem mora lá diz que a casa é mal-assombrada. Besteira. É só uma visita nossa, enquanto dormimos e sonhamos com um passado em que a vida era um copo após o outro, uma aula após a outra, um dinheiro aqui e ali e o futuro sendo construído em linhas tortas.
É, agora posso dizer.
Cheguei, de fato.
O show começa agora.
E ele, como o poeta já disse, não pode parar.
Não se perde a chave de um moinho de vento :)
ResponderExcluirte odeio :(
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