quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Dançarina

Maldita hora que eu fui colocar uma calça.

Parecia que aquela porta avermelhada e estilizada da boate era a boca do Inferno, com um demônio musculoso disfarçado de segurança na porta. Minhas pernas já estavam relativamente úmidas e a tendência era piorar, já que eu sequer estava perto de entrar na festa. Reclamei e fui repreendido duramente.
- Eu falei pra você vir de bermuda. - ela disse, distraidamente - Você não quis. Agora aguenta.
- Ia ser muita frescura - mordi o lábio, sorrindo - perguntar pro segurança se tem ar condicionado lá dentro?
- Vai ser frescura você ficar chorando depois de eu te dar uns tapas!
Aquela gargalhada gostosa de ouvir. E me roubou um beijo. Estalado. Deu um risinho logo depois e continuou sonhando acordada, pensando na balada, nas músicas, na vontade de dançar. Ou qualquer outra coisa plausível, na fila de entrada de uma boate.
Balancei a gola da camisa, tentando produzir alguma brisa para refrescar aquela noite quente. Engraçado, todo mundo faz isso e não faz absolutamente nenhuma diferença. Resolvi aguentar no osso, agora era tarde. O segurança me revistou. Olhei em volta e todos os clientes da casa noturna estavam com roupas leves e de verão. E como dizia aquela propaganda sobre rúgbi: "Coincidência? Não. Não."
Me separei dela. Ela teve que entrar pelo outro lado, para a revista feminina e, do jeito que era espoleta, já deveria estar me esperando na pista. Com um sex on the beach reluzente nas luzes coloridas. Ou seria ela reluzente? Não, ela é a luz daquele lugar.
A decoração era toda baseada em neon, com tons escarlates, rosados e índigos. O som retumbava e tentava arranjar espaço para escapar daquela danceteria, que tinha seus ouvintes no subsolo do pequeno prédio. "Inferno fica debaixo da terra." pensei, amaldiçoando aquela temperatura desértica.
Fui instruído a descer as escadas, pelo demônio-segurança. Fui invadindo aquela criação dantesca, com os decibéis quase explodindo enquanto ricocheteavam no concreto. Antes que pudesse começar a transferir calor humano com aquelas dezenas de baladeiros levemente embriagados, eu a vi. Linda, rodopiando e pulando, alegre com seu shortinho branco e com aquela blusa azul-marinho caindo nos ombros. Espirrando sex on the beach para todos os lados.
Fiquei na beira da escada, encostado, estático. Apreciando a vista daquele paraíso.

Até a hora que um marmanjo começou a dançar atrás dela, cheio de amor para dar.
Suspirei, começando a enfrentar a turba dançante, com só um pensamento:

Não dá mesmo pra ser feliz o tempo inteiro.

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