Faz tempo que eu não escrevo de amor.
Minto. Faz tempo que eu não escrevo do meu amor. Meu amor conturbado e complicado. Meu amor injustiçado pelo destino. Meu amor maravilhoso e sublime. Meu amor que clama, quase como se fosse um ato simplório (mas não é):
- ...me dá um sorriso?
Eu sempre fui otimista. Sou expert em olhar o lado bom das coisas:
- Cara, nem fui pra faculdade. Minha mãe faleceu...
- Nossa, meus pêsames... - penso um pouco - ...ela tinha seguro de vida?
Exagerado, às vezes. Mas com a melhor das intenções, mesmo sabendo que vou pro inferno por isso. E é nisso que eu vou basear este retrospecto que irei discorrer. Sobre as cenas de amor que vão ficar na memória. Como aquela imagem santa, de romaria, que mesmo você sendo evangélico, não consegue deixar de observar aquela fé, aquela crença incondicional, e dizer: "É bonito demais". É o que eu escuto também.
"Você é um bonito."
* * * *
Era uma vez um céu azul. O almoço pesou, mas era cedo demais para estudar. A natureza chamou e disse:
- Deitai em minha relva. E apreciai meu dia ensolarado.
Eu puxei ela pela mão e disse:
- Vamos curtir um pouco dessa graminha?
Ela aceitou.
Ela me aceitou. Do jeito que eu sou. Com todos meus inúmeros defeitos.
A gente deitou, lado a lado, de mãos dadas, e ficou vendo aquele firmamento. Conversamos sobre muitas coisas, mas o que me marcou, foi a companhia dela, diante daquele azul turquesa.
Sempre foi a companhia dela.
* * * *
Pensei em brigar hoje. Briga feia, pra ninguém botar defeito. E aí, claro, você se pergunta:
- Como assim, brigar? Vocês se amam tanto, pra que? Só de birra, pra variar, você adora isso.
Calma. Vou ser bem sucinto. Até talvez brutal, leviano e com um quê de perversão.
Já ouviram falar de sexo de reconciliação?
* * * *
Eu já não aguentava mais.
A tarde caía e nada de a gente se liberar. O hotel podia estar lotado, e aí? Iríamos dormir mais uma noite separados? Depois de tanta espera? Danação total.
Até que a hora chegou, a recepção nos recebeu, assinamos o termo e subimos para o quarto. Era simples, tevê, duas camas, banheiro e telefone. Me joguei em uma das camas e liguei a tevê. Jogo de futebol do campeonato distrital. Ela me olhou, com cara de quem não botava fé.
- Vai mesmo ficar vendo jogo?
Eu queria ter arrancado a roupa dela no momento que a porta se fechara. Mas não. Sou um idiota completo, fingindo ser charmoso.
- Vou, tá massa.
- Sei...
A noite se instalara ao mesmo tempo que a fome.
- Vamos pedir alguma coisa?
- Tem umas esfihas aqui perto. Mas a gente tá no centro, à noite. Sei lá.
- Relaxa, tá comigo, tá com Deus.
Babaca. Tinha que falar isso? Deixa o amor ser divino.
E foi. Até com cheiro de esfiha.
* * * *
Turbulência.
Acontece nos melhores casais. Normalmente, a culpa é do marido. O homem é burro por natureza. Não valoriza o que interessa, não transmite o que é necessário e acaba se perdendo nas nuvens negras que vêm para abalar uma relação. O avião treme. Ele treme. A coisa toda treme, nas suas bases aparentemente tão sólidas, como se alguém quisesse provas disso.
Confusão.
Ele se confunde com suas próprias idéias. Ela tem convicção e aponta o que falta. Ele tenta compreender, absorver. É conversando que se entendem. Por que? Não devia ter dito o que disse. Não devia ter feito o que fez. Mas podia dizer e fazer o que quisesse, era só pensar antes de dizer e fazer. Verbos que andam sempre juntos, como eles sempre quiseram fazer, desde que se conheceram.
Solução.
Antes de tudo são amigos. E se amam, até doer a carne e sangrar o corpo. Ele já disse que arrastaria montanhas por ela. Ela já disse que não desistiria de lutar. Ele busca, nas suas memórias, as coisas que valem a pena. E só vê ela. Diante de todos esses fatos, fica a idéia, flutuante: as coisas só dão certo quando se quer de verdade. Eles querem.
Aliás, quem não quer?
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