domingo, 7 de novembro de 2010

Hoje, ontem e sempre

O tom era sépia. O chapéu fedora caia sobre os olhos dele, para esconder aquele ódio latente.
Minto.
Não era ódio. Era ciúme, dos mais inveterados e infundados. Quantas demonstrações de amor haviam sido dadas por ele? Ela perdoou sim e aceitou todas as coisas ruins que ele tinha: a vida boêmia, as inúmeras amigas, sua estupidez e sua grosseria. E ainda esboçava naquele rosto esguio um sorriso de parar o trânsito, enquanto arrumava o vestido rubro que iria usar, estilo Greta Garbo. Mas qual era o motivo de tanta provocação?
Observou o corpo dela se encaixando como uma luva na roupa. O espelho de camarim que ela tem no quarto refletindo a luz tênue do abajur, enquanto ela terminava a maquilagem.
- Ainda está bravo? - riu-se a moça - Não fique assim, amore mio, meu cuore é só seu.
Ele entortou a boca, como quem desdenha da resposta. Ela não viu, tinha que ter muita atenção ao passar o rímel e o delineador. O rapaz acendeu um cigarro de palha, perto da janela, antes que a sua amante começasse a ralhar sobre o "cheiro insuportável e terrível".
- Já acabou? - perguntou ele, seco
- Quase...
Soltou uma baforada, quase que dentro da casa, só de birra. Mas seria piorar as coisas. Pensou em todas as mulheres que já passaram a perna em homens de todas as épocas. Dalila, Cleópatra, Sherazade, Helena de Tróia, Giuliana...
- Giuliana, vamos logo que a ópera vai começar em vinte minutos. - resmungou - Não precisa estar vestida como se fosse ver o rei George em pessoa.
- Non voglio ver o rei George, mas a alta roda vai comparecer, não é? A noiva de um barão deve estar molto bella!
Arrumou o cabelo encaracolado e negro com toques suaves da palma da mão alva, ergueu-se e abriu os braços, com ar quase sensual.
- Como estou, lorde William?
Ele observou. Fitou. Encarou e mediu de cima a baixo. Aquele corpo. Aquelas formas. E deu uma gargalhada vigorosa, jogando o cigarro de palha pela janela em que se encostava.
- Você é mesmo esplêndida.
Giuliana baixou a cabeça, sem esconder o sorriso sacana. E disparou:
- Eu sei...

* * * *

O tom é a cores. O chapéu preto da Oktoberfest estava enterrado na cabeça dele por motivos incertos. Ela não se incomodaria de passar vergonha ao lado daquele inconsequente. Era um dos defeitos dela, pensava a moça. Deveria ser mais orgulhosa e dizer, com todas as letras:
- Tira esse chapéu e deixa de ser avoado!
Mas não dizia. Relevava, tolerava. Ele era assim mesmo. E amava ele assim. Não sempre, mas amava. O rapaz, naturalmente, nem atinara-se disso. Doía nela, às vezes. Será que ele entendia o amor incondicional, o esforço que era para ela relevar sempre? Cansa, sabe.
- Eu sei. - murmurou o rapaz
- Oi?
- Eu sei o que foi, Ju. - ele coçou a nuca, embaraçado - Tu tá assim porque eu ainda não te paguei aquela balada que a gente foi. Relaxa, que amanhã eu recebo e tá tudo certo.
Ela franziu a testa. Como ele podia ser tão distraído? Depois fechou os olhos (relevando e tolerando) e brincou, zombeteira e irônica.
- É. Sempre liguei muito pra dinheiro mesmo.
Ele riu, mostrou a língua e deu a mão para ela.
- O que eu faço com você, hein, Will?
- Ah, posso te dar algumas idéias?
Se beijaram, sob a brisa do verão.
Sem ciúme, sem jogos, sem problemas.
- Você é mesmo demais. - disse Will
Ju baixou a cabeça, rindo por trás dos seus cabelos revoltos e negros. Tinha que ser demais mesmo, para estar ainda com aquele rapaz. Mas replicou, com doçura:
- Você também, bonito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário