João (lembram-se dele?) saiu do hospital com uma aura de angústia fúnebre, como se ele tivesse recebido a notícia que alguém tinha morrido.
Pelo contrário. Ele estava andando. Sua capacidade de erguer-se em suas próprias pernas tinha sido recuperada. Sob o olhar alentador e sereno de Nádia, sua companheira de quarto, que ficaria ali até receber alta para andar de cadeira de rodas, para o resto da sua vida.
Nosso herói, entristecido, não conseguia deixar de pensar naquela ruiva sensível e resignada, como uma santa. Voltou para sua casa em Santa Tereza, naquela subidinha modesta que todos o conheciam. Agradeceu uma vizinha pelas flores, cumprimentou o padeiro que havia o visitado, sorriu para as crianças que vieram o abraçar, com saudade de seus presentes aleatórios. Era um homem querido no bairro.
João sentou nas escadas de mosaico, aquelas famosas que apareceram num clipe de um rapper norte-americano.
Queria ter sentido o toque daquela pele alva. Nunca dera um abraço na moça, que nunca se queixaria. Será que para ela João tinha sido só uma companhia? Será que ela pensava nele, assim como ele pensava nela?
No outro dia foi trabalhar. Foi recebido com festa. Os pedreiros fizeram uma faixa de boas-vindas a João. O engenheiro chefe disse que João poderia ficar em casa aquele dia, mas nosso herói - como qualquer herói que se preze - recusou. Foi polido com os amigos, aceitou os presentes, os abraços e pediu pra que todos voltassem ao trabalho, já que aquele prédio não ia se construir sozinho.
- Mas no samba no Batata, você vai curtir a festa só, não é? - perguntou alguém
João riu, como não achava que riria de novo.
- Eu vou sim, só chamar.
Mas ele não queria ir sozinho. Queria levar aquela mulher incrível com ele. Mostrar que ele poderia ser feliz como ela. Com ela.
Com ela?
É isso! Ele estava, enfim, se entregando a uma paixão.
Pediu ao chefe uma dispensa rápida, tinha que buscar umas coisas que ficaram no hospital. O engenheiro riu, disse que João não queria folga uma hora, mas queria dispensa na outra.
- Te decide, homem de Deus! Vai lá, eu sei que se é pra você sair no expediente, é questão de vida ou morte.
João tinha a impressão que, às vezes, as pessoas sabem o que elas estão falando, mesmo sem saber. Como se alguém sussurrasse em seus ouvidos o que elas deveriam falar naquele momento. Nada era por acaso.
Assim como não era coincidência que já haviam se passado dois dias desde João recebera alta. E que naquele dia Nádia também estava de saída. Iria poder repousar e fazer fisioterapia em casa, já que tinha dinheiro o suficiente para tratar-se com o conforto de sua morada. Tinha que ser rápido.
Partiu em direção ao Gol, deslizou pelo capô cinematograficamente, como se já estivesse em plena forma, e dirigiu até o hospital. Correu esbaforido até a recepcionista e perguntou de seu antigo quarto, se Nádia ainda estava lá.
- Ih, senhor, ela acabou de sair...
Danação. Poderia ter o endereço dela? Não, só parentes tinham acesso. Mais danação. Tinha que ter falado antes o que sentia, ao invés de ficar se lamuriando e tentando arranjar outro motivo senão aquele, o da paixão desenfreada e avassaladora e...
- João? Você esqueceu alguma coisa?
A voz inconfundível.
João virou-se e viu aquele sorriso, sentada na cadeira de rodas como se quisesse estar ali, como se pudesse levantar a hora que desse vontade. E nosso herói, juntando toda a coragem que tinha, disparou.
- ...eu esqueci as flores que me mandaram.
Ela não conseguiu disfarçar. E ele notou. Ela queria ouvir que era por causa dela. A recepcionista, os pacientes que esperavam seu atendimento, o segurança da porta e até as enfermeiras que disfarçavam fazer alguma coisa por perto, todos queriam ouvir aquilo também.
- Mentira. - João voltou atrás - Eu vim por sua causa.
- Por minha...?
- Eu não sei o que é, mas não consigo parar de pensar em você. Eu...
João olhou em volta. Sorrisos de quem já sabia o que ele queria dizer. Uma senhora que estava sentada próxima de João puxa a barra de sua calça e sugere:
- Diz que ama ela, meu filho.
João ri sem jeito e Nádia também. Ela gira as rodas de sua cadeira para próximo de João, que fica estático, com um sorriso amarelo. E Nádia, com sua naturalidade de sempre, pede.
- De pé assim não vai conseguir me beijar...
Ele se ajoelha e o mais novo casal se beija, sob aplauso geral da recepção do hospital.
* * * *
Nádia ainda não consegue andar.
João ainda trabalha de pedreiro. Mas os dois moram juntos agora.
Felizes enquanto os braços calejados de João empurrarem o corpo alvo de Nádia em direção ao seu amor que parecia coincidência, mas não é.
Nunca é.
E isso é um final com gosto de tutti-frutti, senhoras e senhores.
se ele não voltasse, eu o fazia voltar. belo texto, mais uma vez!
ResponderExcluirmaldito...
ResponderExcluirmaldito...
maldito!!
é uma pena... mas só isso que consigo dizer...