Pó.
Dele viemos e para ele voltaremos.
Tudo que existe no mundo segue no ciclo em que do pó se formam as coisas mais belas, que eventualmente se transformam novamente em pó, por fatores diversos.
O apartamento é repleto de pó. Móveis caindo aos pedaços estão cobertos por lençóis que não vão ser mais utilizados. As cortinas mofadas cobrem um esboço de luz do sol, feito em nanquim negro. Teias de aranha povoam os cantos do teto. A parede, uma vez branca, tem manchas de pé e tempo. Uma barata corre por aqui e por ali, parecendo desnorteada: antes haviam tantas formas predatórias que queriam a sua e a morte de suas parentes, e agora, o silêncio. Nada mais habita ali, além do silêncio. Ele flutua por cima da sala de estar, com seus olhos arregalados. O silêncio é paranóico, a qualquer instante ele pode ser cessado, morto com gritos e risos. Por isso fica em estado de alerta constante.
O silêncio não entende o motivo de tanto medo dele. O que ele não sabe é que, montado em suas costas, a solidão vem zombeteira, como quem debocha:
- Você não tem coragem de gritar sozinho para nos espantar. Vai parecer um maluco.
E o silêncio ali, mudo.
Você diria, resignado:
- Realmente, hoje vou embora e não vou gritar. Vai que a síndica escute...
A solidão faz bullying. Ela te bate sem motivo. Te agride, com o sonoro paradoxo de que ficar sozinho parece ensurdecedor. Você olha suas malas na soleira da porta. Parece que sempre estiveram prontas para ir embora. Elas não tem culpa de lembrarem despedida.
Você dá uma última olhada naquele lugar que você chamou de casa. Sorri quando vê aqueles fantasmas de você mesmo, junto com os das pessoas que conviveram ali, rindo, bebendo, comendo, brigando, chorando, amando e, é claro, tomando bronca do porteiro pelo barulho alto de madrugada.
A lágrima briga para fugir. Você segura ela, com rédea curta. Não é hora para isso. Você vai ter ainda uma última vingança, um último suspiro, antes de declarar derrota ao silêncio.
A porta se abre.
Os olhos arregalados do silêncio mostram fúria e desespero. Se ele pudesse gritar para que você pare, ele gritaria. Mas seria um absurdo. Ele se contorce com os sons da sua saída. A solidão desaparece quando você vê o sorriso de quem te ama, te esperando do lado de fora. Ela também está injuriada. Você ri o riso dos vencedores. O estampido da porta se fechando é como um tiro no peito do silêncio. E a chave girando é uma faca cravada em suas entranhas.
Mas o silêncio e a solidão, esse casal odioso, são imortais. Eles sempre acabam voltando.
E você sempre acaba indo embora.
magnífico! heheh
ResponderExcluirnão consigo me identificar mais com o que outros escrevem!
cara, só vai! continua, segue teu caminho! :)