terça-feira, 21 de setembro de 2010

Madrugada

Madrugada é um problema, né.
Você começa a ver tevê no começo da noite, querendo saber se o Grêmio ganhou.
Passa pela novela das sete, chega o jornal, William Bonner, e sua barriga começa a roncar de fome.
Você segura a onda, claro, depois de ver os gols você come. Mesmo tendo passado o dia com um calzone no corpo. O miserável desgraçado do Bonner começa a tuitar desesperadamente a cada segundo e, como se fosse brincadeira (mas não era), ele termina TODOS os blocos dizendo: “E a seguir, os gols da rodada de hoje do Brasileirão!”. E você ali, quase morrendo de inanição e dizendo: “Filhodaputa, filhodaputa...”. Prestes ao limite, você grita:
- PeloamordeDeus, alguém me traz um Doritos correndo, de lá do posto de gasolina?
Resposta de sujeito número um:
- Eu não tenho filho desse tamanho. Aproveita e lava a louça, que tá escroto o bagulho.
Resposta de sujeito número dois, com uma dose perceptível (espero) de ironia:
- Aham, já vou lá, só deixa eu ver uma coisa aqui.
Você espreme, massageia, contrai, relaxa e nada de seu estômago se acalmar. Parecendo contração pré-parto. Ou você depois daquela puta joelhada no saco. Aí, fica insuportável e, no meio da previsão de tempo, você voa até a cozinha, pega tudo que sirva de alimento humano e voa de volta, rezando pra que a Patrícia Poeta continue falando. E continue gostosa.
Você senta, com um sorriso no rosto e:
O Jornal Nacional fica por aqui. Voltaremos logo mais com o Jornal da Globo, tenham uma boa noite e um ótimo final-de-semana.
- Filhos-da-puta!
Então o jeito é ver a novela das oito (quem falar “É das nove!”, morre) e o Super Cine, que provavelmente vai ser uma bomba de filme. Você, comendo ainda, passa pela novela das oito brincando, até queria poder puxar assunto com alguma menina, brincando: “E aí, será que o Fred morre?”.
Agora o Super Cine é uma vergonha, pra você é pra todo o canal que deixa passar esses filmes podres. Você começa a sentir o poder do pós-rango e dá aquela cochilada mágica. Parece estar numa nuvem. A nuvem estoura no momento que você lembra: “O Grêmio, porra!”.
Daí você acorda e já tá passando Altas Horas. Você xinga profundamente Morfeu e seu sonho maldito. Os sujeitos que moram com você chegam bebendo na sala:
- Ô, mano, cê não vai vir aí?
Uma voz enrolada de quem acabou de acordar ecoa no apartamento:
- Peraí, que eu quero ver o Grêmio.
- Ah, mano, desencana.
- Nem fudendo, tô desde às seis da tarde querendo saber.
- ...tá, cê que vê aí.
Você continua sua jornada solitária, feliz de saber que o programa chegou na metade mais rápido, graças àquela última distração sobre uma festa. O sono começa a bater de novo. É mais incontrolável que a fome do começo da história, de modo que você tomba rapidamente.
Aí você acorda com tapas e chutes. Os sujeitos retornam ao lar completa e absurdamente embriagados e mostram:
- Quer fumar um?
Você se permite a esse tipo de transgressão moral, só de birra por ter ficado a noite toda na função do time de coração. Você dá duas bolas e capota novamente no sofá. Notem que dormir foi a atividade mais produtiva na frente da televisão.
Acorda com amnésia total da noite, vendo o Bom Dia Brasil e com alguém dizendo:
- Velho, a festa foi animal. Chegamos lá e a primeiríssima coisa que a gente viu, foi um cara com a camisa do Grêmio. Eu perguntei pra ele o resultado do jogo e ele disse: “2 a 1 pro Inter, vão me zoar muito amanhã.” Daí a gente entrou na balada e...
- Filho-da-puta. Sai daqui de perto de mim.
- Ô, lôco, por que isso?
- Me acordaram pra fumar droga, mas não podiam falar do Grêmio?! Sabiam que eu tinha ficado só por isso!
Seu amigo deixa o queixo cair no pé. Ele não está ouvindo isso. Ele sente pena de sua insanidade. E você, podre de cansado, querendo dormir uma vida, resmunga:
- E aqueles bostas ainda me perdem pro Inter.
Madrugada desgraçada.

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