Eu imaginava que ao sair daquele automóvel abafado e ilusoriamente confortável eu iria me sentir melhor. Melhor não somente comparado ao Ailton no momento dentro do carro abafado, mas ao Ailton dentro de toda a sua trajetória de vida. Na verdade eu não imaginava, eu sabia dessa mudança. O momento de saída era, consequentemente, o momento de entrada. Abertura ao mundo da fantasia mais real do que a realidade já me dita algum dia.
Saí do carro e entrei pelo grande portal, ao caminhar lentamente pude ver crianças se refrescando com água do bebedor depois de um futebolzinho, pude ver essa água claramente, mas infelizmente não pude ver a gota de água que escorreu dos meus olhos ao desfrutar daquele lugar. Gota como resultado de um cisco que entrou em meu olho. Vocês sabem que esse tipo de cisco não perdoa não é? Nas paredes obras de arte coladas com fitas durex, obras vivas e coloridas, obras vindas de um lugar escuro e transformadas em luz ali mesmo.
Depois de obras de vidarte fui à sala das florestas, lá se encontravam as árvores responsáveis pelos frutos de todo o lugar. A primeira que avistei foi uma árvore seca e espinhosa, não era mal tratada nem murcha, muito menos lhe faltava água. Devia que era assim por natureza mesmo. Murcha era a árvore que estava ao meu lado, coitada, caindo aos pedaços e sem esperanças para germinar novas sementes. Mas para minha alegria a árvore que veio ao meu encontro foi a da espécie Anelis, viva e de galhos bem abertos. Além de emprestar sua sombra e me proteger do forte sol que me fazia suar, Anelis me levou para uma sala fantástica. Não perguntei para minha árvore favorita, mas aquela área só podia ser sala de espetáculos, pois foi exatamente isso que desfrutei lá dentro. Houve desfile, risadas, discursos, aplausos, alegria, gritos, criatividade, autógrafos, abraços, piadas, reproduções e muitas ações. Platéia e palco integrados. Mas o engraçado é que me falavam que as salas daquele lugar possuíam crianças tensas, perigosas, arrogantes. Talvez essa fala concorde com minha teoria de salas de espetáculos, talvez quando as crianças não estão em show, suas estrelas não reluzem como deveriam, não são polidas como mereciam. Só sei que em uma hora e trinta minutos desfrutei de sentimentos impossíveis de se sentir em uma sala de cinema.
Apesar de estar invadido por Getúlio Vargas, no território de Getúlio Vargas, eu estava livre de qualquer censura, estava ativo à renovação.
Sei que vou sorrir ao terminar de compor esse relato, que sorrirei quando reler esse relato, que você irá sorrir ao ler esse relato. Que bom, pois amo isso, poder sorrir. Talvez assim consiga me encontrar cada dia mais, vivendo e vivendo.
E a decepção? Bom, se ela vir, direi com orgulho que pude aproveitar o sonho loucamente.
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Antes que venham me dizer o quanto é lindo esse texto, notem para um detalhe.
Ele foi escrito por um grande amigo meu, que vou levar para a vida toda.
Ailton Pereira Júnior. (com o coração do tamanho do nome)
O único rei de Imbituba.
Estamos nessa mesma estrada nego veio. haha!
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