Falei com Deus hoje. E pedi um presente, um dom qualquer que ele tivesse na prateleira, que pudesse explicar essa coisa louca que ricocheteia no meu coração que nem bala perdida num faroeste em preto-e-branco. Ele sorriu, abriu uma gaveta e me deu um óculos escuros, tipo Rayban.
- ...não foi o sol que fez eu me apaixonar por ela, Senhor. - afirmei, cético
Ele fez uma careta, como quem diz: "Ok, muito engraçado". Coloquei os óculos. E comecei a ver um rapaz, vestindo uma toga na Grécia antiga, falando com uma jovem com tranças e um sorriso estonteante.
- Esse sou eu?
O Todo-Poderoso assentiu.
- E essa aqui...?
Ele, com sua sabedoria divina, assentiu novamente.
- Nossa.
O casal que eu via pelos óculos se beijam. O rapaz se casa com a moça, tem um casal de filhos, uma casa no litoral grego e vivem felizes até a velhice. Falecem de mãos dadas, quase ao mesmo tempo, como sempre fizeram tudo. A visão vai se enegrecendo e dando espaço para outra. Uma donzela ouve os flertes de um soldado trajando uma armadura leve. O seu acampamento pode ser visto ao longe, enquanto conversam sobre o amor nas portas de uma cidade da Idade Média.
- Eu e ela de novo?
Deus me disse que eu era a donzela dessa vez. Eu torci o nariz, mas eu era tão "bonita" que deixei estar. O Onipresente ainda vai ouvir de mim, ele vai ver...
O casal se beija. O soldado sai em guerra, mas volta. Eles se casam, tem dois filhos, uma casinha no litoral bretão e vivem felizes até a velhice. Falecem de mãos dadas, quase ao mesmo tempo, como sempre fizeram tudo.
- E agora, onde vamos nos encontrar? - tentei adiantar-me, ansioso
Deus gesticulou para que eu aguardasse. Fiz bico, mas esperei. E vi.
Eu era um rapaz americano, usando casaco de couro, óculos escuro e topete. Ela era uma pintura, um pin-up, uma jovem usando um laço amarelo nos cabelos cacheados, um vestido azul-turquesa e um par de sapatos com meias brancas. O sorriso era estonteante, como sempre. Eu a fazia rir, como sempre. E nos beijamos. Logo, o casamento, os dois filhos e a morte natural.
- Eu encontrei ela tantas vezes assim?
"Estas e muitas vezes mais, meu filho."
- E eu vou terminar assim de novo?
"O plano espiritual está escrito. Se você vai segui-lo ou não, depende de vocês."
Refleti por um tempo. E devolvi os óculos, sorridente. Deus também sabia o que eu pensava e bagunçou meus cabelos. Mas mesmo assim eu disse:
- Minha história não vai ser um plágio de seu plano. Vai ser só inspirada, como todas as que eu já escrevi.
E vai ser assim: ao invés de termos dois filhos, vamos ter um e adotar o outro.
Fica mais politicamente correto.
ahahahaha imprevisível, como sempre. E lindo, pra variar.. :)
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