Hoje acordei lutando boxe.
Enquanto eu dormia, de madrugada, ela usava uma mão para me acariciar, afagando meus cabelos. Com a outra mão, acomodava sua luva vermelha. Aquela mão que iria buscar o nocaute a cada round. A cada cruzado, a cada upper, assim que eu despertasse daquele sono de anjo.
E foi isso que aconteceu. Cada soco...
- Vou te deixar.
Foi o que eu disse. Fui duro até, seco. Quando ela me prendia, eu não ficava por culpa dela. Ficava pelas pessoas que ela trazia ao meu redor. Mas agora, eu era mesmo livre. E poder ir embora, sem olhar pra trás, não tem preço.
Ela parecia resignada. Quase como quem dissesse (será que não disse mesmo?):
- A onda não vai quebrar diferente. O vento leva uma duna e coloca outra no lugar. A lagoa vai continuar no mesmo lugar, a chuva vai continuar vindo antes do sol de verão. As pessoas vão vir passar o verão aqui do mesmo jeito. Você sentia que era parte de mim, mas você sempre soube que era parte de quem estava comigo também. Você não me mudou em nada, eu que te mudei em tudo.
O público se levanta. Alguns roem unha. O juiz começa a contagem. "Um... dois..."
O locutor de boxe é um cara passional, suponho. Se eu tivesse algum narrando essa luta, ele diria.
- Incrível! Ele está de pé! Ele se ergue da lona, depois de uma saraivada de golpes, sensacional a luta!
É. Eu me levantei depois dessa e repeti.
- Eu vou te deixar.
Silêncio.
- Eu vou te deixar porque você me mudou mesmo. O mundo tem seus movimentos e eu tenho os meus. Agora é mesmo a minha hora, meu momento de me movimentar, minha translação. Eu nunca entendi qual era tua mágica, o que fazia eu querer estar contigo. Agora entendo. E não faço questão de estar mais. Deixo minhas memórias felizes contigo e abro mão de ter mais delas por mim. Pelo meu futuro. Se quer mesmo saber, você não me faz mais feliz só por existir na minha vida.
Silêncio. E lá vem um cruzado poderoso de direita.
- Você vai deixar tudo pra trás? Tudo que conquistou? Que egoísmo...
- Nada vai ficar pra trás. Eu tenho braços pra levar tudo comigo.
- Tem mesmo? Pensei que fosse imaturo.
- Não sou mais imaturo. Quer dizer, não tanto. Sou indisciplinado. Gosto da inconsequência. Mas eu vou mudar. Por isso vou embora. Você nunca me ajudou nisso.
- Você que tem que se ajudar.
- Sim, claro. Não a culpo de nada. Mas eu vou procurar quem possa me ajudar.
- ...isso é um adeus?
- Nunca vai ser. Eu te amo.
- Boa sorte. E quando quiser voltar, o mar, a lagoa e a ponte vão estar nos mesmos lugares.
- Eu sei. Eu sei.
Nocaute.
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