terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Preconceito

Chefe: Tem gente estranha demais no meu escritório.
Não digo isso porque sou paranóico ou exagerado. Tem cada tipo que vou te contar.
Primeiro, o Miranda. Ele senta no cubículo do lado, ouço os seus dedos biônicos digitarem as oito horas de expediente, sem parar. Ele deve ter sido alvo de alguma experiência, porque ele não para nem pro almoço. Ir ao banheiro é só um detalhe, ele deve ter um penico escondido.
Depois, tem o Olavo. Ele me assusta. Tem um tique nervoso que o faz piscar com força a cada frase. Fora a magreza mórbida. Penso se ele não tem anemia ou se ele não aceitaria uma pizza gigante por caridade.
E tem o Marcos. Ele usa um óculos fundo-de-garrafa. E nunca ouvi a voz dele na vida. Acho que se baterem na cara dele, ele pede desculpas. Esse é tipo que mais me assusta. Por quê? Os quietinhos que fazem as maiores bizarrices. Não me admiraria se ele chegasse aqui com um rifle semi-automático e fizesse a gente em pedacinhos ou se ele armasse uma bomba que arrebentasse o andar inteiro. É, eu preciso arranjar outro emprego!

Miranda: Hmm, a pilha do meu gravador tá acabando. Acho que na volta pra casa, eu vou comprar um carregamento. Essa fita com o som de dedos digitando foi uma sacada de mestre. O chefe até veio me perguntar se eu não queria férias, de tanto que me ouvia digitar aqui do lado! Acho que vou aceitar, afinal.
Ah, nunca vi trabalho tão fácil! Fico aqui no meu cubículo, fechadinho, bebendo e vendo mulher pelada no computador, mandando corrente de piada pra galera e o otário achando que eu sou o funcionário do ano! Quer mais que isso?

Olavo: Droga. Minha mulher vai acabar me matando. Ela é insaciável! Meus camaradas andam falando que eu estou cada vez mais magro... pudera! Depois de oito horas de trabalho, chego em casa e ainda fico a noite toda acordado, "trabalhando" nela! Fico pescando o dia todo de sono.
É, parece uma boa idéia essa selvageria, e foi. Nas primeiras quinhentas vezes. Agora é um terror. Um suplício. E as fantasias? Fui de mendigo outro dia, porque era o sonho dela, o amor na periferia. Sem falar nas bizarrices. Ontem mesmo, tive que jogar figo em calda nela e comer cada um deles. Fiquei até meio enjoado.
Quer saber? Vou no médico agora mesmo. Quem sabe ele me ajuda. Ou me dá um conselho, sei lá.

Marcos: Quando eu sair desse prédio maldito, vou mandar tudo pelos ares.


Olavo: Deus, o prédio inteiro foi abaixo...
...aposto que foi aquele safado do Miranda!

* * * *

Então, meu querido leitor, faça um favor ao mundo.
Pegue esse preconceito e jogue no mar, dentro de uma caixinha onde nem o MacGyver consiga encontrar.
Afinal de contas, pode ser o seu prédio na próxima vez...

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