segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A visão

Ele não via aquela menina.
Tudo bem, via. Mas não enxergava.
Ela fazia questão de começar o dia tomando café - bebida odiosa! - apenas para sentar perto dele, na lanchonete da esquina. E ele, concentrado em seu notebook e em seu livro pela metade.
A garota já falava francês fluentemente, mas voltou ao nível básico do curso por causa dele, que nunca sequer notou a proficiência dela na língua.
Só por ele, a tal garota (vamos chamar de Cecília) comprou um labrador, para passear nas ruas que ele andava (vamos chamá-lo de Luis), com seu cachorro da mesma raça. Isso tudo na esperança de que ele a abordasse de alguma maneira, como:
- Ei, belo cachorro!
- Aah, obrigada. Tenho o Rex desde pequena.
- É mesmo? Vamos tomar um café para deixar os bichos descansar um pouco?
Ou então:
- Você...não é aquela moça do francês?
- Sim, sou eu.
- Que coisa boa! Eu andava precisando de ajuda nos verbos, pode me dar uma mão?
- Na sua casa ou na minha?
É. Uma utopia total, pois Luis nem mirava Cecília quando passava ao seu lado. E os labradores babando.

Enfim, Cecília se cansou, como todas as pessoas não correspondidas no amor. Voltou a tomar seu chá branco em sua casa e largou o curso de francês. Não conseguiu se desfazer do cachorro, sua única "coisa boa" naquilo tudo. Voltou à programação normal de sua vida.
Porém, no entanto, contudo, todavia...
Havia outra programação, a da tevê, que fez com que Cecília tivesse um baque. A menina assistiu, sem fôlego, a sorridente imagem de Luis, sua ex-paixão-platônica, no lançamento de seu livro, com a seguinte manchete em imagens garrafais:

"Rapaz cego lança livro de romance, escrito em nova tecnologia para deficientes visuais."


Sim. O notebook era adaptado para cegos. O labrador era para sua locomoção. E o francês, bom, esse era só para lazer mesmo. Mas foi por isso (e exclusivamente por isso), que a menina Cecília não havia sido notada. Ainda.
Afinal, como eu falei, ele a via, mas não enxergava.

Obs.: Cecília significa (pessoa cega) e Luis Braille... bom, é o cara do braile.

3 comentários:

  1. Gio, parabéns pela criatividade!!!!
    Realmente as vezes queremos tanto uma pessoa mas esquecemos de perceber algumas coisas nela, como suas dificuldades...asim nunca conseguiremos compreende-la!
    Abraço e boas férias!

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  2. Giovanni, muito digno! bem construido e mesmo não sendo exatamente original vc teve a habilidade de evitar o lugar comum. Parabéns!!
    Com orgulho.... rsrs

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  3. é destestável como adoro os textos que você escreve ^^ hahaha
    beeijo dançarino ;*

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