O professor entrou em silêncio na sala de aula.
As conversas eram tão animadas naquele início de manhã, que suponho que apenas eu fui capaz de perceber sua presença. Metodicamente, ele alinhou seus pertences em cima da sua mesa, ajeitou o guarda-pó que um dia foi branco e começou a escrever na lousa:
“O rato roeu a roupa do rei de Roma.”
Como se tivesse todo o tempo do mundo, o mestre mirou cada um dos grupinhos, sorrindo. Encabulados, os meus colegas foram se aprumando em suas respectivas cadeiras. Os burburinhos foram morrendo solenemente, em respeito à chegada da autoridade pedagógica. Altivo, ele permaneceu mudo até que a curiosidade pairasse em cada cabecinha. Inclusive a minha: “O que é essa frase? Quem é ele? Ele dá aula de quê?” pensei comigo
- Me digam o que está errado nessa frase.
Alguns adoram desafios, outros preferem charadas. Mas ninguém gosta de ficar em dúvida. Por isso, não demorou muito para alguém se manifestar.
- ...gramaticalmente, professor? – perguntou alguma garota de óculos e piercing no umbigo
- Tem algo errado na gramática dessa frase? – rebateu ele
Ela refletiu, apertando os olhos como se pudesse espremer o tal equívoco que ele queria saber. Alguns desistiam, sem entender. E então, tive um estalo.
- Não existem reis em Roma.
O rosto do professor iluminou-se. A classe inteira se virou para me encarar, uma horda de cabeças incrédulas, que ouviram minha resposta correta em slow-motion.
- Em Roma, existiam imperadores. É isso que está errado.
- ...corretíssimo. Qual é o seu nome?
O meu nome não importa. Eu descobri, com esse pequeno acontecimento, que eu tinha uma capacidade que outros não tinham. Um poder, um dom.
O dom de ver além. De enxergar quando todos são cegos. De solucionar, corrigir, ajudar, resolver, indicar.
E por isso, dez anos depois, virei professor, como aquele que me mostrou o caminho.
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