O Renato era um duro.
Nunca tinha um tostão no bolso. Desempregado de vez em sempre, quando tinha, era contado para comer e andar de ônibus:
- Ainda mais com esse aumento da tarifa, né?
Mas mais incrível do que sua pobreza constante, era a capacidade de estar devendo para todos. E não estou falando só de dinheiro. Volta e meia vinha alguém cobrar um almoço, uma cerveja ou até, pasmem, uma cueca.
- Eu precisava tomar um banho! Não dá pra repetir cueca! - protestou ele, em meio às chacotas dos amigos - Questão de higiene, pô.
E ele completava, enquanto contava a grana emprestada de alguéns:
- Relaxa, que tudo que vai, volta. Eu te pago amanhã!
Assim ele ia levando, sem muita ambição de mudar de vida. E como era um cara muito querido, também continuava devendo, sem muita ambição de pagar.
Até que um dia, o inevitável aconteceu: alguém ficou nervoso com aquela malandragem toda. E lógico que tinha sido o Alberto, cara mais mesquinho e pavoroso da turma. Boa pessoa, mas com um ego que se explodisse, riscava o país do mapa. E um egoísmo fora do comum.
- Ô, Alberto, será que rolava de você me dar uma carona para a universidade, já que você vai para lá?
- Dez reais.
- Como assim, "dez reais"?! Virou taxista?
- Gasolina, sabe como é.
- Mas você JÁ ia para onde eu vou!
- Não com você no carro.
E juntaram a fome com a comida. Os dois se conheceram da forma mais conturbada possível.
- Opa, prazer, Renato.
- Alberto, prazer.
- A gente vai tomar uma cerveja ali no Canja, quer vir?
O povo estremeceu. Para quem conhecia o Renato, aquilo era praticamente um "você vai pagar a rodada para mim hoje?". E o Alberto não faria isso nem para a mãe dele.
- Claro, por que não?
E assim se foi a noite, com a tensão de, em qualquer momento, Renato proferir sua frase favorita:
- Eu sei que é chato, mas eu vou ter que fazer isso...
Medo. Renato sorriu e Alberto estranhou. E o gran finale:
- Alberto, meu chapa! Você pode fazer o favor de pagar a rodada hoje e eu acerto contigo amanhã?
- Nem pensar.
Na lata. E agora? Renato ia ficar magoado? Alberto iria se irritar?
Ah, podem apostar que sim. Atrocidades só não aconteceram porque separaram. O Renato reclamando de um lado.
- Eu sabia que você era um mão-de-vaca! A cerveja mais barata do Brasil e você desconfiando de que eu vou te deixar na mão!
E o Alberto dizendo impropérios do outro.
- Você que é um caloteiro! Devendo pra todo mundo! Tem mais é que ficar aí lavando copo pra aprender!
Alguém se propôs a pagar. Mas o orgulho de Renato estava ferido. A dignidade é própria dos corações fissurados.
- Deixa, eu pago essa. Vou a pé pra casa. Mas olha bem! Eu vou ficar rico um dia e vou pagar tudo que eu devo! Pode escrever!
Pagou a conta bufando e saiu marchando para casa. Alberto há muito tinha deixado o bar. E ficou assim.
* * * *
Três semanas depois. Papo de corredor. Me perguntam:
- Tá precisando de grana?
- Sempre. Quem que eu mato?
- Ninguém. O Renato tava te devendo, não é?
- Claro, pra quem ele não tava devendo. Mas o que que tem?
- Não viu na tevê? O safado ganhou na mega!
- Ah, tá, conta outra.
- É sério! Deu entrevista e tudo!
- Tá brincando?
- Tô te falando, rapaz. E citou todo mundo que ele tava devendo, inclusive você. Disse que era só aparecer na casa dele que ele acertava. Ia comprar a mansão depois que pagasse todo mundo. E com juros!
- Que maravilha, dinheiro numa boa hora!
- E tem mais...
- O que?
- Falou do Alberto.
Daí são várias versões, já que a gravação do programa não existe, nem no Youtube. Uns dizem que ele lamentou que a generosidade das pessoas se limitassem em uma rodada de cerveja e que esperava que "alguém" estivesse profundamente arrependido do que havia feito. Outros contam que ele disse o nome de Alberto. Independente disse, eu dei risada.
Plantar generosidade nos outros faz germinar alegria em você.
Afinal, como Renato sempre disse: "Tudo que vai, volta!"
Na melhor das hipóteses, com juros.
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