quarta-feira, 19 de maio de 2010

Andar de Trem

João era um cara normal.
Andava de trem todo o dia para ir trabalhar. Voltava de trem no final do expediente. Conhecia cada canto do transporte público. Sabia que banco era frouxo. Nomeava as pessoas que o acompanhavam todo o dia. "Sr. Careca-Com-A-Camisa-Suada". "Srta. Silicone-Com-Vinte-Anos". "Sra. Beata-Com-Meia-Arrastão". "Sr. Roqueiro-Com-Guitarra-Imaginária". "Srta. Dormindo-Em-Pé".
Eram vários personagens que acompanhavam João em sua jornada infinita de trabalho. Trabalho árduo. Trabalho chato. Trabalho.
E então, um dia, o chato não aconteceu. O trem perdeu o freio. O trem perdeu os trilhos. O trem perdeu a linha. E os passageiros perderam a vida.
Todos, menos um.
João viveu, sem nenhum arranhão.
O que é um milagre bem superior daqueles contados nos filmes de Hollywood, considerando nosso sistema de saúde.
Aliás, os médicos não foram sequer questionar João e sua sobrevivência miraculosa. Eles só agradeceram a economia de serviço. Os jornais nem tomaram conhecimento do tal João. Viram um "ex-defunto" sair do necrotério e acharam normal.
João não foi trabalhar por um tempo, ganhou licença por ser duro de matar. Resolveu usar o tempo livre para ir ao que seria o seu enterro e dar as condolências aos parentes dos seus amigos desconhecidos que pegaram o metrô para o céu, sem volta.

A mulher do "Sr. Careca-Suado" comentou baixinho que pelo menos o seguro de vida do marido ia ser bem utilizado, abraçando o ex-amante.
A "Srta. Silicone" não tinha parentes no enterro. Ouviu-se dizer à boca pequena e maldita que ela era viciada em heroína e nenhum herói podia tirá-la da cova em que estava antes do acidente. Que dirá agora.
A "Sra. Beata-com-Meia-Arrastão" deixou maridos desolados e esposas satisfeitas. Menos uma - desculpem, mas vou reproduzir a expressão - "puta cínica" para destruir casamentos.
A banda do "Sr. Roqueiro" tocou num bar de motoqueiros um dia antes e encheu tanto a cara que nem devia saber que o seu guitarrista tinha ido desta pra uma melhor.
E a "Srta. Dormindo-em-Pé"? Estava do lado de João!
- Você está bem! Pensei que estava no trem! - perguntou, espantado
Ela enrubesceu.
- Eu...não fui trabalhar aquele dia. E você?
João pensou bem. E olhou para a imagem do tal homem crucificado na parede.
- Também não. Quer tomar um café?
Pra que tentar esclarecer uma coisa inexplicável? João deixou que aqueles semi-vivos regozijassem a morte de seus companheiros de viagem, enquanto saía ao lado da linda dorminhoca. Que teve tempo de perguntar:
- A gente não vai ter que pegar um trem, né?

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