Fazem o quê? 20, 30 anos?
Jamais consegui depreender algum sentido do que aconteceu naquela noite de véspera de Natal. Eu tinha lá meus 17 anos e ela, uns 30. Tinha combinado com um vizinho de ver o jogo do Brasil em sua casa, logo depois da missa do galo, por isso não dormiria: iria esperar até meia-noite para fazer a chamada "concentração pré-jogo".
O prédio que eu estava morando era de meu ex-cunhado, Meneses. Sua mulher atual, Conceição, e sua mãe, Dona Inácia, me acolheram muito bem, quando eu cheguei do lugarejo provinciano onde nasci para viver no Rio de Janeiro, a fim de estudar para o vestibular. Minha vida era tranquila, naquele condomínio fechado e seguro, no Botafogo, onde eu passava grande parte dos meus dias com meus livros, poucos amigos e algumas baladas. Os hábitos eram de pessoas velhas, coisa da D. Inácia. Nós dormíamos cedo e acordávamos mais cedo ainda. Quando Meneses dizia que ia para o teatro, eu pedia para me levar junto, pois uma companhia de teatro produzia peças sobre as obras que iriam cair em minha prova. Ele nada me respondia, sua sogra fazia uma cara feia e a empregada doméstica soltava um risinho escondido de vez em quando. Só depois que eu fui ter certeza que o "teatro" era um eufemismo para outra coisa: Meneses tinha uma amante, que ele visitava uma vez por semana. E Conceição sabia, e aturava, sempre resignada.
Que mulher, aquela! Todos do nosso andar chamavam ela de "santa", o que era bem verdade, já que suportava tudo que meu ex-cunhado fazia com ela. Na verdade, era uma pessoa moderada, não se exaltava nem fazia escândalo. Poderia aceitar qualquer coisa, e que alguém me corrija se eu estiver errado. Sobrevivia numa passividade e benevolência incríveis. Não tinha uma beleza exótica, tinha uma aparência comum. Simpática, não fazia fofoca nem odiava ninguém. Hoje, acho que de repente nem amar alguém, ela amava.
Voltando à véspera de Natal, Meneses resolveu ir ao teatro. Eu tinha dito que iria passar o Natal com a família no interior, mas o dinheiro não dava. O pessoal da casa manteve o costume e se retirou cedo, sem ceia, nem festa. Eu peguei minha camisa da seleção brasileira e sentei no sofá, com a minha cópia da chave do apartamento em mãos. Eram três: a minha, a de Meneses e outra reserva. Na hora certa, eu sairia pelo corredor, subiria de elevador até o quinto andar e iria acordar meu companheiro.
- Mas o que você vai ficar fazendo até meia-noite, garoto? - perguntou a mãe de Conceição, antes de dormir
- Vou estudar um pouco, Dona Inácia.
Eu estava lendo Dom Casmurro, um dos livros requisitados para o exame. Fui para perto do abajur e usei daquela luz tênue para me jogar nas suspeitas e teorias de Bentinho. Em pouco tempo, o tempo que parecia ser lento quando se começa a ler Machado se tornou rápido como uma flecha e meu relógio digital apitou 11 horas, algo que quase não notei. O que notei foi o som leve de passos no corredor. Alguns instantes depois, apareceu o rosto corado de Conceição.
- Ainda tá aí?
- Pois é, não é meia-noite ainda.
- Que paciência, essa tua!
Entrou na sala, de robe branco entreaberto na cintura. Era magra e esbelta, seus olhos sonolentos me lembravam os de Capitu. Fechei o livro, enquanto ela puxou uma cadeira para sentar em minha frente. Perguntei se eu tinha a acordado, se estava fazendo muito barulho, mas ela atalhou:
- Que é isso, eu acordei sozinha.
Duvidei naquela hora. Afinal, ela não tinha cara de quem estava realmente dormindo. Mas se Conceição estava acordada, por que esperara sua mãe deitar-se para vir falar comigo? Me senti um idiota egocêntrico e conclui que ela só não quis colocar a culpa em mim por ter acordado. Era mesmo uma "santa".
- Mas já tá quase na hora. - falei eu
- E você acordado, enquanto seu amigo dorme. E esperando sozinho. Pensei que eu ia conseguir te dar um susto, vindo que nem uma fantasma, toda de branco.
- Eu ouvi os seus passos, e você não demorou a aparecer.
- E o que você tá lendo? Não me diz, é o livro do Machado de Assis.
- Esse mesmo. É um romance bem conhecido.
- Gosta de romances?
- Aham.
- Já leu Memórias Póstumas?
- Sim, eu tenho o livro, mas deixei lá no interior.
- Eu gosto muito de Machado de Assim, mas ando lendo pouco, falta tempo, né? Que romances que você tem que ler pro vestibular?
Comecei a citar alguns. Conceição prestava atenção, com os olhos meio fechados, meio abertos, me olhando. Umedecia os lábios com a língua. Terminei a lista e ela não disse nada. Parecia procurar um assunto melhor. Endireitou-se, cruzou as pernas, firmou seu cotovelo num dos braços da cadeira e pousou seu queixou sobre sua mão, tamborilando os dedos em seu rosto, tudo isso sem parar de me fitar.
"De repente, ela esteja entediada." tinha pensado eu.
Decidi me levantar:
- Conceição, acho que já tá na hora e eu...
- Não, não, tá cedo ainda. Acabei de olhar o relógio, são 11:30. Tem tempo. Você, madrugando assim, não vai ficar cansado amanhã?
Sentei-me novamente.
- Eu já estou acostumado a fazer isso.
- Eu não consigo. Se eu não durmo direito numa noite, não faço nada no outro dia. Mesmo que seja por meia hora, preciso cochilar. Mas isso é porque eu estou ficando velha...
- Que é isso, Conceição, você não é velha.
Falei com tanta convicção que ela sorriu. Normalmente, ela não parecia tão articulada, tinha cara daquelas donas de casa que, em dez anos, vão ter três filhos, esquecem do mundo e ficam confabulando sobre a vida dos outros. Mas naquela hora, porém, uma outra Conceição estava em minha frente, com um quê de sensualidade. Procurou arrumar um fio solto na cortina e seus quadris balançaram de uma forma diferente da que eu via no dia-a-dia. Ou melhor, da que eu não via, pois não havia percebido o que havia por trás daquelas roupas folgadas e sujas de trabalho caseiro. Mas em compensação, não falava muita coisa além do espanto de me ver de pé ainda. Era limitada em suas idéias e parecia esquecida. Repeti que ia esperar a missa do galo para ver o jogo de futebol.
- Mas o jogo é tudo igual, o Brasil sempre ganha.
- É, mas seleção é seleção. E ver o jogo na casa de um amigo é diferente de ver o jogo lá no interior, com meu pai. Ele fala demais.
Ela inclinou o corpo mais para perto de mim. Fiquei levemente tenso, podia ver seus olhos escuros de perto; sentir o cheiro de sabonete de quem tomou banho há pouco; dava até para contar as sardas que tinham em seu rosto. E enquanto ela me dava corda, eu ia falando, sobre todos os assuntos que me vinham na mente. Fazia com que risse, para ver seu sorriso perfeito, ou perguntava algo para que franzisse a testa, com ar interrogativo. E quando falava muito alto, ela ralhava:
- Shhh, a mamãe vai acordar!
E assim ficamos, próximos um do outro. Era possível sussurrar para sermos compreendidos, entre nós, mas eu falava muito mais. Perguntei se sua mãe tinha o sono leve também.
- Sim, ela está longe mas acorda fácil. E depois, para dormir, é um parto.
- Eu também sou assim.
- É mesmo?
Conceição achou graça, três sonos leves na mesma casa.
- Eu sou que nem a mãe. Acordo, rolo na cama, me levanto, tomo um leite morno, volto e nada de sono.
- Foi o que aconteceu hoje.
- Hoje não foi isso.
Não captei o significado da negativa incisiva dela. Provavelmente nem ela entendeu. Me contou sobre um sonho ruim que teve um dia antes e indagou-me se eu tinha pesadelos. Contei sobre minhas experiências e assim que terminei, já puxou outro assunto. Assim fomos, enquanto a hora passava e eu nem lembrava de missa ou de jogo. De vez em quando, me cortava:
- Fala baixo, mais baixo.
As impressões da minha memória fraca são vagas, mas eu lembro muito bem que Conceição, de simpática, passou a ser bela, belíssima. Mas do nada, ela levantou-se, olhou para o espelho e estremeceu com um arrepio. Tentei levantar, mas ela me segurou na cadeira.
- O que houve?
- Eu...comecei a ter sono agora.
Não era sono. Era outra coisa. Eu acho que agora entendi o que aconteceu.
Ela caiu na real. Ela estava seduzindo um garoto, uma mulher casada. Um moleque que mal tinha saído das fraldas. O que era aquilo tudo? Uma aventura? Vingança pelo seu marido adúltero? Ela não podia se rebaixar ao nível dele. E eu, fui um joguete. Pensando por esse lado, neste momento, não guardo rancor, mas sei que ela não era tão santa assim.
E, numa conveniência do destino, bateram na porta.
- Olha seu amigo. Ele acabou por vir te acordar, de tão tarde que ficou.
- Será? De repente é o zelador.
- Não é não. Eu vou dormir, estou morrendo de sono. Bom jogo pra você.
Ela parecia decepcionada, talvez com ela, talvez comigo que não soube agir diante daquela situação. Fiquei disperso a noite toda, lembrando do episódio, nem vi o jogo direito. No outro dia, como se nada tivesse acontecido, aquela Conceição com ar de futura velha me serviu o café. E me perguntou o resultado do jogo.
- 4 a zero para o Brasil.
É como dizem. Azar no amor, sorte no jogo.
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