segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Agosto

"É como um aborto."

Carol ficou olhando meio abobada. Ele disse isso mesmo? Não é pegadinha? Não, era o que ele achava mesmo de seus poemas. Carol percebeu rápido (assim como todas as pessoas efêmeras que passavam na vida dele) que Théo não era um cara de meias palavras, papas na língua, aquelas expressões clichês todas. A barba por fazer. Cabelo sem corte nenhum. As roupas puídas e desbotadas, calça cáqui rasgada, camisa social branca, gravata skinny. A cara ébria de quem se distrai fácil. E desse jeito sonso, respondeu, na lata, como que ele escrevia aquelas coisas tão lindas, na Oficina de Poesia da faculdade. Fazer o que?

Carolina ficou sem jeito, era óbvio e natural.
Mas e daí? Afinal era assim mesmo que Théo sentia. Uma epifania, um último respiro antes do fim. Ou seria do começo? Carol foi falar com Théo por livre e espontânea vontade, não era obrigação de trabalho acadêmico ou por convívio inevitável. Ela queria mesmo saber de onde vinham as poesias, diabos, ele disse! Mas será que a resposta não foi seca demais? Rude demais? Provavelmente, para uma menina daquele porte. Ela era uma coisinha, pequenininha assim, daquelas de guardar dentro daqueles porta-alianças aveludados, onde a gente vai pro banheiro se trancar na última cabine pra admirar, escondido da cobiça do outro. Isso dava um caldo. Carol, a Poesia Ambulante. Mesmo sendo meio patricinha, tinha seu charme.

Mas o que ele estava pensando? Mulheres já causaram grandes tragédias da história da ficção e da realidade. Helena, Guinevere, Ofélia, Julieta, Cleópatra. Cada uma com seus dotes e atrativos. Porque logo Théo, um mero estudante de Literatura, não seria acometido da tempestade de ilusões que uma atração dessas poderia trazer? Já sofrera demais, era melhor se afastar. Ele sabia lidar muito bem com a carência e com a solidão, não com a decepção.

Carol sorriu, tentou aliviar o silêncio constrangedor que se seguiu na viagem de ônibus que faziam. Pensou em falar do tempo, do show do Los Hermanos, mas sentiu que seria vista como fútil e vazia. Se bem que, nessa perspectiva, é justamente por se sentir uma casca que ela resolveu conhecer melhor esse garoto. Ele tinha um ar misterioso que era aprovadíssimo pelas amigas, mas o jeito excêntrico não era nada atraente. Mas Carolina não ligava. Estava cansada daqueles carinhas que não acrescentavam em nada, onde era só chutar uma árvore e caíam três iguaizinhos. Falando só de futebol, video-game, mulher e bebida. No curso de Administração, ela só conheceu esse tipo de sujeito. E o conceito de "valor agregado". Esse Théo tinha muitos benefícios latentes pelo seu custo de mercado. Só teria que encontrar um jeito de convencê-lo que ela também tinha, apesar da bolsa Gucci e da blusinha Fórum.

E o perfume Dolce & Gabbana. Que perfume! Porque mulheres tinham que cheirar bem? E ter a pele macia? E ser tão doces, sensíveis e maravilhosas quando queriam? Era a perdição, de fato. Théo não fazia um pedantismo, um jogo duro para uma gatinha manhosa. Ele era uma pessoa solitária, mas feliz. Seu coração petrificado não iria conseguir aceitar se ela parecesse uma ode de vinte estrofes e acabasse virando um haicai de três linhas. Tinha saúde frágil, asma crônica, compreende?

Mas aí, veio o sorriso.
O resto da história, nenhuma rima alcança,
então não sejamos presunçosos de tentar adivinhar.
A única verdade absoluta é que o que é de pele,
ele se expande num segundo.
E chame isso do que quiser.

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