Foi incrível.
Vejo pessoas dizendo que odeiam este esporte e tenho vontade de chutar a cara delas, do mesmo jeito que faço com aquela bola de couro sintético, todo domingo. E eu sinto isso porque elas não sabem como é a sensação de realizar um bom jogo, de fazer um gol bonito, de driblar com categoria, fazer uma assistência magistral.
O futebol - e só ele, apesar de todas as inúmeras e únicas sensações que o esporte proporciona - tem coisas que nenhuma teoria consegue decodificar. Como, por exemplo, as minhas partidas de domingo.
Algumas vezes, elas são palco de quebra-canelas, voadoras, carrinhos desmedidos, enfim, quase somos transportados para o octógono do UFC. Em outras, temos o famigerado dia inspirado. É inexplicável, parece história pra boi dormir. Mas acontece.
No meu caso, acordei de ressaca, num desses dias. Se é que posso chamar de "sono", aquelas duas horas mal-dormidas dentro de um ônibus sacolejante, retornando de uma festa em outra cidade. Com muito chope no bucho e pouca disposição, lembrei que era domingo. Coloquei a chuteira, o uniforme e fui direto para o campo sintético onde jogávamos. Sou atacante, e pensei que a tática do dia seria esperar a bola na banheira, como normalmente faço.
Harlan, por sua vez, já vinha emendando seu terceiro jogo, sem contar o nosso, e estava sentindo as pernas bambas, enquanto se dirigia ao local da partida. Estava fedendo, sentia-se suado e ainda queria tomar umas vendo o jogo do Galo. O Atlético tinha que ganhar do Cruzeiro para sagrar-se campeão estadual. Mas antes disso, Harlan tinha que jogar mais uma vez. Ele era volante, um rapaz negro de grande estatura e força física. Mais feio que uma dividida com o Felipe Melo.
Bruninho vestia a camisa do Flamengo, como sempre. Camisa 10, como a do Ronaldinho. Magrinho, raquítico, terminou com a namorada naquele dia, por mensagem de celular. Sentiu-se livre. Queria mais contar as boas novas aos amigos que jogar necessariamente. Mas ele sabia que era indispensável. Como o dono da camisa que trajava, ele gostava do drible. Caneta, lençol, lambreta, tudo isso antes de serem objetos, Bruninho conheceu como movimentos de efeito. E os reproduz a hora que quer. O seu grande problema é que, por possuir tal dom, esquece que o esporte bretão, por mais porcamente que seja praticado nos nossos domingos, é coletivo. E quase sempre perde a bola, no meio de seus lampejos de craque.
Bomba é goleiro. Seus 120 kg não permitem muita movimentação, de modo que embaixo das traves é o melhor lugar para ele. Ex-fisioculturista, ele não tem muita noção de espaço. E bolas rasteiras são um pavor. Mas em suma, faz um trabalho decente, tem explosão e fecha os ângulos, com todo seu tamanho. Descobriu que seu parceiro de negócios (ele possui uma academia na zona nobre da cidade) queria ir para a concorrência. Ficou o domingo inteiro matutando uma saída para aquilo e resolveu jogar bola com aqueles moleques para ver se desestressava.
Eu e estes caras simplesmente entramos no campo com o mesmo objetivo. Mesmas convicções, apesar de estarmos vivendo coisas diferentes. Mas lá, tudo mudava. Eu só era o 7. Harlan, o 5. Bruninho ficava com a 10. E o Bomba era o camisa 1. E eu nem citei o resto do time.
Começava a partida, às 20h15. Eram dois tempos de meia hora, num campo que cabiam seis jogadores na linha e um no gol. A bola corre rápido pela relva artificial. Já aos 3 minutos, Bruninho inventou de dar uma meia-lua num jogador do outro time e tomou um carrinho. Gemeu muito, mas todos sabiam que era só cena. Jogador de futebol tem um quê de ator.
Aos 14, Bomba focava. Uma cabeçada forte, num cruzamento de escanteio, à queima-roupa, ficou no "quase". Ele encaixou a defesa com perfeição e arremessou a bola para frente, me buscando. Tentei engatar um contra-ataque, mas fui lento no giro e perdi a bola.
21 minutos. Harlan evitava correr muito, isso, aos poucos, o recuperava do excesso de jogos do dia. Conseguiu esperar a chegada do atacante do outro time, para dar um bote certeiro, antes do chute e carregou a bola até ver Bruninho livre. Ele tentou dominar, mas quando me viu todos os jogadores do outro time fechando em cima dele e me deixando livre, dentro da área, preferiu fingir que iria dominar e deixou a bola passar. Um corta-luz perfeito.
Eu ainda estava meio enjoado e com dor de cabeça, mas a adrenalina percorreu minha espinha. Uma descarga afinou meus sentidos. O passe veio forte, amorteci o impacto levando o pé para trás, no momento que a bola tocou em mim. Ela girou, com efeito. Ajeitei, vendo meus adversários se aproximarem em alta velocidade e, mesmo alvejado de caretas feitas pelo esforço físico, fui frio.
Não sou habilidoso. Sei correr pra frente e tenho alguma sorte. Só. Mas naquele dia, com o álcool no organismo, pensei.
"Eu posso driblar esses dois."
Na mesma hora, me vi livre de marcação. Tudo é mecânico. Depois que eu iria perceber que eu puxei a bola, desviando-a do toque de um dos zagueiros e fintei com o corpo, deslocando o eixo do outro defensor, que aproveitou o movimento vigoroso para escorregar e cair sentado no chão.
Harlan arregalou os olhos, surpreso. Bomba gritou. Bruninho pediu a bola de volta, mesmo sob cerrada e perplexa marcação. E eu não ouvi nada disso.
Só chutei, com força. Como se a pelota fosse alguém dizendo:
- Não vejo graça nenhuma em ver 22 caras correndo atrás de uma bola. Não tem sentido!
Gol, é claro.
A rede se estufava, bem no ângulo direito do arco. O pobre goleiro não teve o que fazer. Levantou-se do chão reclamando e chamando o próximo arqueiro.
E eu comemorei, como se fosse final de campeonato. Imaginei a torcida, extasiada. O narrador gritando meu nome. Uma dancinha na comemoração.
O jogo terminou 4x4. Resolvemos todos irmos para o bar, os dois times, contando vantagem um para o outro, comentando sobre os melhores momentos e falando alto. Suados, cansados, com alguns hematomas. Mas felizes. E domingo que vem poderíamos fazer aquilo tudo de novo.
Isso é futebol.
Cara.. apesar de não jogar mais bola nos domingos aqui em Floripa, tu mandou muito bem nessa.
ResponderExcluirFio, que foda.