O traço pisca.
O laptop parece perguntar: "E aí? Vai ou não?"
E o homem responde em voz alta: "Ainda não. Não dessa vez."
Ele tem seus quarenta anos. Coça a barba grisalha, por fazer. Acende um cigarro. E digita.
"Não tenho mais a inspiração de antigamente."
Termina por fechar o aparelho, suspirando. Levanta da poltrona e caminha lentamente pelo seu apartamento. Aconchegante, simples, as paredes ainda cheirando a tinta. Ou seria a parede do prédio do lado?
Não tinha certeza, já que não saía mais de casa. Observou as prateleiras. Prêmios nacionais e internacionais de literatura. Fotos com escritores renomados. Elogios de críticos perpicazes emoldurados nas paredes, exaltando suas obras. E agora, o poço havia secado. Nada mais saía. Digitava, elementos medíocres, piegas.
"O que eu sempre fiz para escrever bem?" Tinha alguma técnica?
Olhou pela janela. Som de crianças brincando. O Sol iluminou a casa com um ar de divindade. Como se Deus quisesse responder.
Ele tinha uma técnica.
Arrematou o sobretudo, - Sol nem sempre traz calor - seu bloquinho esquecido numa gaveta e saiu em ritmo desabalado. À procura de seu novo livro.
- Pra onde senhor?
Taxistas. Boas pessoas, com muitas histórias de vida. Quem sabe se tornava taxista? Ou escrevia sobre um?
- Qualquer lugar. - limitou-se a dizer.
O motorista pensou um pouco, olhou pelo retrovisor o bloco de papel e o olhar afobado de quem procura alguma coisa. Depois sorriu:
- Pode deixar, senhor.
O carro andou algumas centenas de metros. O escritor tinha devaneios, epifanias, interpretações de tudo nas ruas. Crianças jogando futebol numa quadra velha e esburacada. O concreto dava lugar ao limo e a chuva deixou sua marca com poças que dificultavam a prática do esporte. Mas criança não liga pra isso. Cada chute levantava uma enxurrada brilhante, um prisma da Natureza. Criança brinca. Criança...
- Jornalista?
- Desculpe?
- O senhor. É jornalista?
- Não. - uma gota de revolta por estragar a linha de raciocínio se apoderou do passageiro.
Mas como seu motorista ia saber que não era para falar? "Logo um taxista, sem falar?" Chegava a ser irônico. Deu um sorriso bobo. E acrescentou.
- Não. Sou escritor.
- É mesmo? Que beleza. Eu leio muito, sabe. Nesse serviço, livro é companheiro em muita noite. Alguns preferem as mulheres da vida, outros preferem a cachaça. Eu prefiro minha Bíblia. O senhor é católico?
- Digamos que sim.
Nunca foi educado em religião nenhuma. Sempre estudou teoricamente cada uma delas, mas jamais elegera alguma como a sua. "Jamais elegi nada como meu." pensa o homem.
Sendo que o catolicismo ainda é preponderante na sociedade, ele costumava dizer que era católico. Talvez espírita. Podia ser muçulmano. E ainda não faria diferença.
- ...mas eu não acredito nessa baboseira de "Jesus voltará". Quer dizer, o cara morreu numa cruz, com uma lança na barriga. Por que ele voltaria? Pra se ferrar de novo?
- ...pois é.
Não queria soar indiferente. Mas sabe que no fundo soou. Sempre foi indiferente com todos. Melancólico, alguns disseram.
Anna.
- E que livros o senhor escreveu? Vai que eu li algum.
- ..."O Retrato".
- "O Retrato"? Do cara que vai atrás da mulher da pintura?
- Isso.
- Nossa. Digo, uou. Esse livro é demais. Minha esposa adora também. Se importa de...?
O novo fã do escritor estende um papel e caneta, entre olhares animados pelo retrovisor. O taxista era um bom homem. Se revela leitor assíduo e discute muitas de suas interpretações. Paciente, o escritor procurava algo aproveitável na conversa, enquanto respondia. Mas nada.
A tarde caíra. Deu espaço a um céu azul-índigo. Logo chegaria a noite fria. Os faróis e luzes da cidade se acendiam. E o passageiro resolve parar ali mesmo, seja lá onde estivesse.
- Desculpe, não quero interromper, mas acho que vou parar por aqui mesmo.
- Opa, sem problemas. - o taxista coça a cabeça e elogia sem jeito - O senhor é um grande talento.
- Obrigado. Muito obrigado. Bom trabalho para você, senhor...?
- Eduardo. Se precisar de um táxi...
Estende um cartão.
- É meu último. - diz Eduardo - Eu sabia que ia valer a pena guardar.
- Espero que sim. Boa noite, Eduardo.
- Até mais, senhor.
O carro parte. O homem levanta as abas do sobretudo. E procura uma placa de rua, para saber onde estava. Solta um risinho cético.
- É. Você está mesmo comigo hoje.
"Anna mora aqui."
Seria muito idiota ir até lá? Diria:
- Oi. Eu estava de passagem e resolvi ver se estava em casa. É, eu percebi que está mesmo. Um poço de doçura, como sempre... a risada também continua bonita. Não. Não foi um galanteio. Eu juro. Você me conhece, eu não faria isso. Não é uma piada! Tudo bem, foi engraçado. Sempre gostou do meu cinismo fingido. Desculpe. Eu sei que não posso vir do nada, meses depois e... tudo bem. Tudo bem. Claro. Eu passo aí outro dia. Eu tenho seu número. Ligo sim.
O ensaio na frente do prédio de Anna não saiu como o planejado. O vidro tinha película. Quem estava dentro poderia ver tudo o que o escritor achava que era só testemunhado por seu reflexo. E na porta que estava refletido seu corpo, aparece Anna.
Silêncio. O escritor se sente como um adolescente. Anna praticamente era uma adolescente. Sua aluna, nos tempos que lecionava na universidade federal. E agora, uma mulher feita, com seus vinte e tantos anos. Mas ainda bem mais nova. E com ardor de uma mulher jovem, fez seu mundo tremer. A equação sempre foi simples, ela queria maturidade e ele queria vida. Os dois se completavam. Mas a melancolia que a decadência lhe trouxe afastou todos de sua vida. Até que foi intolerável que continuassem juntos. "E você não derramou uma só lágrima", disse Anna na época. Talvez essa mágoa fosse impossível de curar no coração da moça. Mesmo que tivesse dito que ela era jovem e que iria encontrar outra pessoa, ela nunca poderia costurar os cacos de seu coração, depois daquilo. E ele realmente não tinha derramado nenhuma lágrima.
Ela vê todos aqueles pensamentos passando na mente de seu ex-professor. E balança a cabeça, sorrindo.
- Liga nada. Você não fazia uma ligação de dois minutos para sua mãe.
Ele também sorri, aliviado por não ouvir alguma resposta ríspida. E se xinga mentalmente por pensar isso de Anna. Ela nunca seria grossa com ele.
- ...é por isso que eu mando livros meus toda semana. Ela fica entretida o suficiente para relevar minha falta.
- E agora que eu li todos?
- Sendo assim, acho que preciso escrever mais. Só não sei sobre o que.
- E você veio aqui para me perguntar isso.
- Na verdade...
"Não seja idiota. Vai dizer que parou aqui sem querer?"
- É. Eu vim pra isso.
- Não era uma pergunta. Vamos, cansei de ficar corrigindo provas de português por hoje. Quero tomar um café.
Segundos. Minutos. Horas.
O tempo passou. A noite jogou sua túnica negra no céu. E as estrelas decoravam tudo, dando um ar de vestes de feiticeiro. A cafeteria que sempre iam ainda continuava agradável. Ou seria a companhia?
Provavelmente a companhia.
- ...e desde então, eu estou dando aulas lá. O salário é ótimo. Tem um ou outro que implica, alguns dizem que eu estou onde estou por sua causa. Mas eu provei com muito trabalho que eu sou mesmo talentosa.
- Claro que é, Anna.
- Mas e você? Precisando de inspiração? Eu gostei do último livro.
- Você não gostou. Sempre que mente, treme sua sobrancelha direita.
- ...é, não gostei. Achei uma merda.
- Eu também não. Mas a tiragem foi decente, considerando o que eu escrevi. Mas sei que a aprovação foi mínima. Se eu fizer outro livro idiota como "O Retrato", eu estou fora do circuito literário pra sempre. Então, viro seu estágiario.
- Não seja duro com você. É só uma fase. Todo escritor tem isso.
- Não acredito que você quer convencer seu professor de que algum escritor já teve um momento de decadência passageira. Todos que caíram, caíram de vez.
- Vai ver é porque você é diferente. Você sabe disso.
Anna pega em sua mão. Os dois sabem que foi um ato falho, involuntário. Mas todas as memórias felizes pareceram estar naquele toque. Que durou segundos. Ela fica levemente corada. Ele abaixa a cabeça.
Silêncio.
- Sabe, - ela murmura, quase inaudível - você daria um ótimo personagem de romance.
Ele levanta o olhar. Ela está com os olhos marejados. Com certeza teve um filminho na cabeça de como pareciam interligados, algo sobrenatural, de outra vida. Anna aperta forte a mão dele. E ele replica.
- Você também.
Ela o fita, com um misto de surpresa e graça, fecha os olhos, deixa escapar uma lágrima e se levanta.
- Quem sabe não foi isso que você veio procurar...
Anna vai embora. Lentamente, como se esperasse um pedido para que ficasse. Pedido que nunca aconteceu. Ele fica lá, sozinho. E pergunta para si, terminando aquele solilóquio mudo:
- Por que não?
O escritor tranca a porta do apartamento. Joga a chave no sofá. Tira o sobretudo. Coloca a carteira na mesa. Senta-se na poltrona, com o notebook no colo. Acende um cigarro. E, com ele na boca, começa a digitar:
"O traço pisca."
Você já viu esse filme?
ResponderExcluirhttp://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/2007/05/17/o_brasileiro_a_via_lactea_abre_a_participacao_latino_americana_em_cannes_791560.html
e eu quero continuação. :)
Profundo.
ResponderExcluirNossa, muito bom! =D
Força com novas que estão por vir.
Luana.